“Emergência e consolidação dos Economistas em Portugal”

Autor: Carlos Manuel Gonçalves

Editora: Edições Afrontamento

Um dos poucos títulos publicados em Portugal sobre Sociologia das Profissões, sendo de recordar a propósito “Os engenheiros em Portugal. Profissionalização e Protagonismo” de Maria de Lourdes Rodrigues, publicado pela CELTA, e, tal como este, baseado numa tese de doutoramento. Embora a investigação que lhe deu origem tenha sido concluída em 1998, o livro de que fazemos a presente recensão só foi publicado em 2006.

Carlos Manuel Gonçalves, sociólogo e professor da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, evoca a criação do Instituto Superior de Comércio de Lisboa, convertido em Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras e integrado na recém criada Universidade Técnica de Lisboa pelo Estado Novo na sequência de movimentações estudantis que perturbaram os últimos tempos da I República, embora só a reforma de 1949 tenha criado um curso de franca qualidade. Extinto o Instituto Superior de Comércio do Porto, também pelo Estado Novo, a criação da actual Faculdade de Economia do Porto só veria a concretizar-se quando foi possível desligar esta criação da reversão da extinção da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, reversão que a Universidade nunca deixou de reivindicar. As lutas entre os licenciados pelo ISCEF e os diplomados pelo Instituto Comercial de Lisboa pelo monopólio de certos cargos profissionais e os argumentos de uns e outros fazem-nos lembrar, inclusive no argumentário, as modernas discussões da vocação das Universidades e dos Politécnicos.

Os economistas firmam-se progressivamente na sociedade portuguesa, sobretudo a partir da elaboração dos Planos de Fomento e da integração na European Free Trade Association (EFTA), embora a hostilidade do Ministério das Corporações ao Sindicato Nacional dos Comercialistas (SNC) que já reivindicava a criação do título de “técnico-economista”, e posteriormente o de “economista” tenha sido responsável por que as Direcções Sindicais eleitas nunca tenham sido homologadas durante 22 anos, e pela exclusão do seu âmbito dos economistas pertencentes à função pública, que legalmente não podiam estar sindicalizados, só tendo sido possível após o 25 de Abril normalizar a vida sindical do agora denominado Sindicato dos Economistas. A Pró-Organização dos Economistas Portugueses (POEP), estrutura informal constituída a partir de 1962,  havia igualmente  tentado promover a reflexão sobre a profissão de economista, na perspectiva de criação de uma Ordem que a organização corporativa não estava disposta a acolher. A designação “economista”, contudo, viria a ser “oficializada” pelo Recenseamento Populacional de 1960, pela inclusão em 1962 no elenco das profissões liberais reconhecidas pela administração fiscal e por um despacho de 1964 do Ministro das Corporações que nomeou uma comissão para estudar questões relativas à profissão.

A evolução pós 25 de Abril, em que o Sindicato dos Economistas  por um lado, apoiou a criação, em 1976, da Associação Portuguesa dos Economistas (APEC) e por outro lado se envolveu no sindicalismo de quadros do sector empresarial, e em que a Associação se extinguiu em 1998, já após concluída a investigação,  para dar lugar à actual Ordem dos Economistas, são também referidas na obra de que nos ocupamos, assente em análise documental e em entrevistas, e que é interessante cotejar com as “Memórias de Economistas” publicadas, também em 2006, pela EDINPRESA. O associativismo dos economistas no pós – 25 de Abril e o papel da Ordem só por si justificariam outra tese.Uma  obra que é uma verdadeira “Certidão de Nascimento” da profissão de economista e que ilustra como o ensino superior pode ser factor de estruturação de uma profissão.

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