Cepticismo

Portugal está a viver uma das maiores crises institucionais no ensino superior, depois da revolução dos cravos. As universidades e os institutos politécnicos queixam-se da falta de alunos. O ministro da Ciência e do Ensino Superior, Mariano Gago, está confiante nas reformas internas que o estudo a fazer pelo departamento de Educação da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) pode trazer ao ensino superior português. O primeiro-ministro José Sócrates continua a andar de um lado para o outro apregoar maravilhas delirantes do choque tecnológico e garantir que desta vez o Governo vai apostar forte na investigação científica. O Presidente da República, Cavaco Silva, considera que Bolonha vai ser a poção mágica. Só que existem indícios que nos levam a ser cépticos:

  1. No dia 8 de Junho cerca de uma centena e meia de professores do ensino superior manifestaram-se em frente ao Ministério da Ciência e do Ensino Superior, contra a precariedade e o desemprego que está a afectar a classe docente, a favor do subsídio de desemprego e da estabilidade profissional.

  2. Um dia depois, houve uma manifestação de bolseiros de investigação científica no Terreiro do Paço, contra o atraso no pagamento das bolsas e para acolher João Freire que se predispôs a vir de bicicleta desde o Porto até Lisboa por ter a sua bolsa em atraso e em jeito de protesto.

  3. A maioria dos Institutos Politécnicos estão a lutar com muitos problemas económicos e financeiros e não sabem se vão ter hipóteses de sobreviver à crise.

  4. O Conselho Nacional de Avaliação do Ensino Superior (CNAVES) suspendeu funções por falta de financiamento e os seus responsáveis criticam a apreciação internacional pedida pelo Governo, com o presidente Adriano Moreira a dizer que o sistema de avaliação estava “paralisado”.

  5. O Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP) quer mais vagas no ensino superior público. Os responsáveis pelas universidades, em parecer enviado ao ministério, pedem menos rigidez na decisão de quais os cursos superiores que, por não terem um número mínimo de alunos, não terão financiamento público. Só que existem muitos cursos em Portugal para o número de alunos que estão interessados em prosseguir os seus estudos superiores.

  6. A Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Económico (OCDE) defende que os países devem adoptar algumas recomendações para tornar o ensino superior acessível a todos, mas a maioria dos governantes europeus estão preocupados com a qualidade do ensino superior na União Europeia.

Por todas estas questões aqui levantadas, nós assumimos uma postura de grande cepticismo quanto ao futuro do ensino superior em Portugal. Um futuro que promete ser duro para os professores. A crise que se sente é real e já existem muitas universidades e institutos politécnicos a fazerem contas à vida. E o desemprego já começou a bater à porta de muitos docentes.

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