Entrevista com Prof. Rui Fausto Lourenço

Presidente do Instituto de Investigação Interdisciplinar da Universidade de Coimbra esclarece:

«Estou cansado de formar jovens investigadores portadores de extraordinárias qualidades e qualificações e vê-los partir para o estrangeiro por falta de oportunidades para desenvolverem a sua carreira em Portugal. E isto aplica-se tanto a portugueses como a estrangeiros».

Rui Fausto Lourenço, Professor Associado com Agregação do Departamento de Química da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, recém-empossado (Março de 2006) como Presidente do Instituto de Investigação Interdisciplinar da Universidade de Coimbra (III), fala da estrutura de investigação que reúne quatro dezenas de centros pertencentes à Universidade de Coimbra, abordando também questões relativas à política científica nacional. «A ausência de uma política clara de estímulo à permanência no nosso país dos nossos investigadores mais capazes e de atracção de investigadores excelentes estrangeiros é notória», afirmou o nosso entrevistado.

ENSINO SUPERIOR - Sendo uma estrutura que reúne 40 unidades de investigação da Universidade de Coimbra, quais os objectivos perseguidos e que tipos de actividades são desenvolvidas pelo III?
RUI FAUSTO LOURENÇO - O Instituto de Investigação Interdisciplinar da Universidade de Coimbra é ainda uma instituição recente. Funciona como Unidade Orgânica da Universidade há menos de dois anos. Estatutariamente, os seus objectivos centram-se no desenvolvimento do diálogo interdisciplinar, consolidando e incrementando através dele a produção do conhecimento no âmbito dos Centros de Investigação sediados nesta Universidade. Como referiu, o Instituto integra actualmente 40 Unidades de Investigação da Universidade de Coimbra avaliadas pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia e que representam cerca de 1600 investigadores (mais 6 Unidades de Investigação solicitaram recentemente adesão ao Instituto). O trabalho de investigação produzido situa-se na área das Ciências e da Tecnologia, das Ciências Sociais e das Humanidades.

E.S - De que modo é coordenada a actuação do III com as actividades desenvolvidas pelas unidades de investigação?
R. F. L. - O Instituto compreende um Conselho de Investigação onde estão representadas todas as Unidades de Investigação que o integram, bem como todas as Faculdades da Universidade de Coimbra, através dos seus Presidentes dos Conselhos Científicos. O Conselho de Investigação é, pois, o órgão que determina as grandes linhas de actuação do Instituto. A coordenação das diferentes actividades desenvolvidas e a articulação permanente com os responsáveis das Unidades de Investigação e das Faculdades é da responsabilidade da Direcção, a que tenho a honra de presidir. É política desta Direcção manter um diálogo constante com as Unidades de Investigação e as Faculdades. Reuniões parcelares, envolvendo Unidades de Investigação com interesses comuns específicos, fazem parte da agenda permanente das nossas actividades. Nestas poucas semanas que levamos à frente do Instituto, tivemos já oportunidade de reunir várias vezes com responsáveis de Unidades de Investigação, na procura de soluções para problemas comuns que urge resolver e no planeamento de acções destinadas a estimular a interdisciplinaridade e a produção científica na Universidade.

E.S - Existem outras actividades que podemos destacar?
R. F. L. - Sim. Estamos também em fase de preparação de um conjunto de iniciativas diversas que estou certo promoverão fortemente o diálogo entre os diferentes saberes, das quais posso já anunciar a criação de um portal científico, dinâmico e aberto ao exterior, que substituirá a actual página da Internet do Instituto e que esperamos possa ser colocado on line dentro de alguns meses. Nesse portal circularão diversos tipos de fluxos informativos que permitirão dar a conhecer melhor a investigação que se faz na Universidade de Coimbra. O portal terá também como objectivo cativar novos públicos para as actividades científicas e servir de interface com as empresas, outras instituições de desenvolvimento científico e tecnológico e os cidadãos em geral. Naturalmente, pretende também facilitar a articulação interna da informação entre a Direcção do Instituto e as suas Unidades de Investigação associadas, bem como entre estas. Outras iniciativas que a seu tempo apresentaremos publicamente em detalhe estão também em fase de planeamento. Delas fazem parte a organização de uma megaconferência científica subordinada a temática interdisciplinar e cujos oradores serão personalidades de grande destaque à escala internacional, a continuação do programa de atribuição de bolsas de doutoramento e financiamento a projectos, concursos destinados a jovens, com incidência em matérias do foro científico, a começar por um concurso de fotografia e imagem científica, etc.

E.S -  Das iniciativas recentemente desenvolvidas pelo III há alguma a que queira dar um destaque particular? Tendo tomado posse com Presidente do III há cerca de um mês, quais os desafios e os objectivos que se apresentam como fundamentais para o seu mandato?
R.F.L - Estão em curso um conjunto de iniciativas destinadas a afirmar a excelência da Universidade de Coimbra no espaço científico nacional e internacional. Como referi atrás, o Instituto tomou a seu cargo a responsabilidade de financiar projectos de investigação em áreas cruciais para o desenvolvimento científico e tecnológico do país, dirigidos por jovens investigadores a quem se pode augurar uma carreira científica excepcional, e definiu uma carteira de Bolsas de Doutoramento que tem vindo a atribuir a estudantes altamente qualificados. Estes programas estão em fase de incrementação e durante este ano decorrerão novos concursos para financiamento, quer de projectos de investigação (a terem início em Janeiro de 2007), quer de Bolsas de Doutoramento (a terem início ainda durante o corrente ano). Simultaneamente, há o maior empenho da Direcção do Instituto em recolocar a Universidade de Coimbra nos centros de decisão que determinam as políticas científicas no nosso País, de onde infelizmente foi sendo progressivamente afastada nos últimos quase 20 anos, fruto da excessiva centralização na capital que também neste domínio caracteriza o nosso País.

E.S -  O que quer dizer com isso da centralização?
R.F.L - Note-se a circunstância de tanto o Ministro que tutela a investigação científica e o Ensino Superior e o Presidente da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (a quem compete em termos práticos a definição de grande parte das políticas nacionais de financiamento à investigação científica) serem provenientes de uma única universidade da capital. No caso da Fundação para a Ciência e a Tecnologia não pode aliás deixar de causar alguma estranheza (não pondo em causa a capacidade das pessoas envolvidas) o facto de, desde a sua criação, todos os presidentes terem saído da mesma instituição, instituição essa que possui indicadores de qualidade e produtividade semelhantes aos da Universidade de Coimbra, como se pode facilmente comprovar através dos indicadores bibliométricos actualmente disponíveis nas grandes bases de dados internacionais sobre produção e impacto científicos a nível mundial. O Instituto de Investigação Interdisciplinar, pela circunstância de representar um número elevado de Unidades de Investigação creditadas pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia e mais de milhar e meio de investigadores, tem certamente também a obrigação de desempenhar um papel de relevo enquanto parceiro no diálogo inter-institucional, o qual assumiremos com determinação e responsabilidade.

E. S - Em termos de ligações às empresas e à comunidade, a investigação desenvolvida pelos centros de investigação da universidade de Coimbra está bem posicionada?
R.F.L - Um dos mitos que se foi criando relativamente à Universidade de Coimbra (e talvez isto não tenha acontecido por acaso ou de forma inocente...) é o tantas vezes referido "mito da Torre de Marfim", segundo o qual se pretende passar a imagem de que a Universidade de Coimbra é uma instituição fechada sobre si mesma, orgulhosa da sua história, mas afastada da realidade que a circunscreve e das dinâmicas de progresso características do Século XXI. Nada mais falso!... A Universidade de Coimbra é de entre as universidades portuguesas aquela que apresenta maiores índices de internacionalização, que se reflectem num número extraordinariamente elevado de estudantes estrangeiros que a procuram e de estudantes da Universidade que realizam estudos de graduação, estágios ou pós-graduações no estrangeiro, mas também se materializam no número elevadíssimo de projectos internacionais em que participa e parcerias que tem estabelecidas com instituições congéneres espalhadas por todo o mundo. Mas a Universidade de Coimbra soube fazer isso tudo mantendo o prestígio que a distingue e respeitando as suas tradições seculares no que elas contêm de mais positivo. É hoje uma escola moderna, aberta à comunidade em geral e às empresas em particular, que unanimemente lhe reconhecem estas qualidades, mas é também um exemplo notável de uma instituição que soube preservar o critério da excelência no ensino e na investigação como factor de marca, não alinhando em facilitismos de qualquer tipo ou ilusórias modas esporádicas, nem fazendo do lobby político o seu modo de actuação preferido.

E. S - A Universidade de Coimbra também dá apoio na criação de empresas?
R. F. L. - A atestar a ligação estreita entre a Universidade, as Unidades de Investigação nela sediadas e a comunidade, posso referir o elevadíssimo número de protocolos envolvendo acções de investigação e desenvolvimento científicos, contratos de prestação de serviços especializados, programas de investigação em parceria com empresas, e outros acordos deste tipo actualmente em curso, alguns dos quais são geridos pelo Instituto de Investigação Interdisciplinar. Mas também poderia referir o apoio à criação de empresas dado pela Universidade de Coimbra através do Instituto Pedro Nunes, a actividade de estímulo à transferência de saberes a cargo do GATS (Gabinete de Apoio à Transferência de Saberes), e muitos outros contributos de iniciativa da Universidade no sentido de desenvolver importante ligações à comunidade assentes nas variadíssimas acções desenvolvidas pelas associações de interface de que é sócio principal ou em que participa, pelas suas faculdades, departamentos e institutos e, naturalmente, pelas Unidades de Investigação nela sediadas.

E.S -  Como caracteriza, quantitativa e qualitativamente, a presença das unidades de investigação da Universidade de Coimbra no sistema científico nacional? Face ao anúncio governamental, relativo a um aumento de verbas para a investigação, e a uma redução de 25% do número das unidades de investigação, quais as suas expectativas face a estas opções recentemente anunciadas?
R.F.L - Já respondi anteriormente, embora de forma parcial, a estas questões. Posso agora desenvolver alguns pontos relacionados com este assunto. Em primeiro lugar, importa referir que as Unidades de Investigação sediadas na Universidade de Coimbra estão, em geral, a nível nacional na primeira linha entre as mais qualificadas e produtivas. Em alguns casos, estão mesmo entre as melhores a nível mundial e, em muitos outros, a nível do muito bom e excelente em termos internacionais. Paradoxalmente, numa altura em que a Ciência em Portugal atingiu padrões de desenvolvimento como nunca anteriormente tinha sido capaz de alcançar, em termos de padrões internacionais, e pese embora o tão propalado "Plano Tecnológico" e os sucessivos anúncios do Governo de Portugal relativos a medidas de apoio à investigação científica - cuja concretização prática até ao dia de hoje se resumem a um grande zero -, vejo com alguma preocupação o futuro desenvolvimento científico em Portugal.

E.S -  Não se importa de apontar os principais problemas que existem em Portugal no que diz respeito á investigação científica?
R.F.L - Apontarei aqui alguns problemas que considero absolutamente essenciais resolver para não iniciarmos um caminho regressivo no que concerne à qualidade da nossa investigação e ao seu impacto internacional e, naturalmente, social: 
Excessiva burocracia

A burocracia é hoje em dia um dos principais obstáculos ao desenvolvimento da Ciência e da Tecnologia no nosso País. Os nossos mais conceituados investigadores, para poderem realizar os seus trabalhos e desenvolver as suas equipas de investigação têm de se confrontar com uma inacreditável e injustificada carga burocrática, que lhes ocupa grande parte do tempo. As exigências formais da Fundação para a Ciência e a Tecnologia são, em muitos casos, inaceitáveis e limitadoras ao normal desenvolvimento das actividades científicas. Não é aceitável, por exemplo, que num projecto cujo objectivo é o desenvolvimento de nanomateriais seja necessário justificar repetidamente e sob várias formas o motivo da participação de membros da equipa de investigação na mais prestigiada reunião científica internacional subordinada a esta temática, ainda por cima quando estes fazem parte do conjunto de oradores convidados ou são membros das comissões organizadora ou científica do evento. Não é aceitável, por exemplo, que se exija justificação da despesa relacionada com a aquisição de um rato de computador, num projecto que assenta o seu método de trabalho essencialmente em equipamento informático. Não é aceitável que a compra de uma embalagem de agrafos ou de uma resma de papel de fotocópia exija exactamente o mesmo procedimento de aquisição (com cabimentação prévia, autorização de despesa, escolha de fornecedor, requisição pelos serviços da entidade que gere o projecto, etc...) que o da aquisição de um equipamento sofisticado ou a aquisição de serviço especializado. Os exemplos que poderia invocar são às centenas!... E a desculpa que a burocracia resulta de exigências de Bruxelas não é uma boa desculpa, porque a utilização dos dinheiros nacionais provenientes do Orçamento de Estado está sujeita à mesma carga burocrática e formalismo que a proveniente dos fundos europeus. Impõe-se alterar completamente a filosofia subjacente à prestação de contas pelos investigadores coordenadores dos projectos e pelas Unidades de Investigação à entidade financiadora, i) privilegiando a verificação dos objectivos científicos contratualizados (quando há cumprimento dos objectivos contratualizados o dinheiro é necessariamente bem gasto!...), isto é, fazendo depender o financiamento atribuído de uma avaliação científica rigorosa dos resultados das acções financiadas, ii) colocando à disposição dos coordenadores dos projectos ou das Unidades de Investigação fundos discricionários associados aos diversos financiamentos, isto é, dotando o sistema da indispensável flexibilidade mas, simultaneamente responsabilizando os investigadores coordenadores e os gestores institucionais, iii) dotando as melhores unidades de investigação e os investigadores mais destacados com financiamentos estáveis continuados que não estejam sujeitos à apresentação de projectos mas antes permitam desenvolver sustentavelmente as equipas de investigação sem ser necessário dispender uma percentagem consideravel do tempo dos investigadores mais seniores em tarefas de angariação de financiamentos e produção de relatórios. Voltarei a este ponto mais adiante, porque ele é, em minha opinião, o principal motivo de estrangulamento ao desenvolvimento sustentado da Ciência e da Tecnologia em Portugal.

Descoordenação e centralização excessiva / custos exagerados da estrutura de gestão

Este aspecto está também intimamente ligado à excessiva burocratização do sistema, mas nem sempre tem tido o realce que penso deveria ter: os custos efectivos da estrutura burocrática que tem vindo a ser montada ao longo dos anos nunca foram avaliados. Penso que hoje em dia se consomem muitos dos recursos que poderiam ser muito melhor canalizados para um verdadeiro financiamento à Ciência, com a manutenção da estrutura burocrática que a pretende gerir. Se contabilizarmos os funcionários administrativos, contabilistas, auditores não científicos, informáticos e outro pessoal que trabalha para as estruturas centrais e aquele que as instituições de acolhimento dos projectos e as Unidades de Investigação se viram obrigados a contratar para satisfazerem as exigências da entidade financiadora, os recursos destinados a este fim são imensos e constituem certamente uma enorme (e em minha opinião em grande parte dispensável) fatia da totalidade dos meios supostamente disponíveis. A agravar este aspecto é necessário acrescentar que, apesar da enorme quantidade de meios que absorve, a estrutura não funciona eficientemente. Só quem nunca teve de gerir projectos de investigação nas Unidades de Investigação ou dirigir uma Unidade de Investigação não sabe que as informações e as normas fornecidas pelas entidades gestoras centrais chegam sistematicamente tarde, são contraditórias ou sucessivamente alteradas, que os documentos enviados se extraviam sistematicamente e voltam a ser de novo solicitados, por vezes várias vezes, que os prazos de avaliação dos concursos e dos pagamentos raramento são cumpridos, ou que a disponibilidade dos responsáveis para o diálogo com os investigadores e responsáveis das Unidades de Investigação e coordenadores dos projectos é praticamente inexistente. Em minha opinião, reduzir fortemente os custos da estrutura burocrática, incrementar o diálogo com as Unidades de Investigação e adoptar políticas transparentes com regras bem claras e que requeiram esforços administrativo-burocráticos locais mínimos são tarefas prioritárias que urge implementar.

Fuga de cérebros
3. Estratégia errada nos esquemas básicos de financiamento à investigação (plurianuais vs. projectos)

Este é, em minha opinião, o factor mais importante de atrofiamento do desenvolvimento científico e tecnológico em Portugal. A política científica tem vindo a privilegiar o financiamento a "projectos de investigação e desenvolvimento tecnológico" em detrimento daquilo que é vulgarmente designado por financiamento plurianual. Este último deveria constituir absoluta prioridade, pois representa o financiamento estrutural continuado das Unidades de Investigação, o único que permite planificação estratégica. Mas, pasme-se, o financiamento plurianual foi, ele próprio, por determinação dos responsáveis do Ministério e da FCT, travestido de projecto!... É claro que deste modo não é possível qualquer planificação estratégica das actividades das Unidades de Investigação, que têm de navegar ao sabor dos critérios dos painéis de avaliação dos projectos, eles próprios muitas vezes difíceis de entender (focarei este aspecto mais à frente). Em poucas palavras, urge alterar o peso relativo do financiamento plurianual (mas um financiamento plurianual não travestido) e dos projectos, privilegiando o primeiro. Urge também, naturalmente, avaliar correctamente a excelência das diferentes Unidades de Investigação. Paralelamente, importa desenvolver a iniciativa "Estímulo à Excelência", que constituiu uma "pedrada no charco" e que tem merecido dos actuais responsáveis um desprezo difícil de perceber (ainda não se sabe quando serão pagos os prémios referentes a 2006 aos investigadores premiados). É simples de entender que, uma vez atribuída a qualificação de investigador de excelência a um investigador, com base nos critérios mais exigentes, a actividade deste deve ser apoiada de forma inequívoca e sustentada mediante formulação de contratos específicos que dispensem a apresentação de um projecto formal. Isto permitiria o desenvolvimento de núcleos de excelência coerentes e assentes numa actividade sustentada, envolvendo a formação de recursos humanos e o desenvolvimento de trabalhos de investigação e desenvolvimento tecnológico, mesmo em locais onde a globalidade da investigação praticada não fosse ainda a melhor, promovendo assim o seu desenvolvimento. Por outras palavras, para os investigadores com estatuto de excelência, o reforço do financiamento plurianual através do pagamento de prémio individual (para utilização exclusiva em actividades de investigação científica) deveria ser uma realidade e poderia constituir a semente do desenvolvimento de novas unidades de investigação ou o início da requalificação das actualmente menos bem preparadas. Tal medida estimularia também a competição institucional pelos investigadores mais qualificados e dinamizaria a mobilidade que, reconhecidamente, em Portugal é, infelizmente, reduzida.

Fuga de cérebros e ausência de estímulo à importação de mão-de-obra científica qualificada

A ausência de uma política clara de estímulo à permanência no nosso País dos nossos investigadores mais capazes e de atracção de investigadores excelentes estrangeiros é notória. A ausência de uma carreira de investigação estável (se bem que exigente em termos de produtividade exigida) é o principal factor responsável pelo facto de sermos um País exportador de cérebros em vez de importador. Em Portugal, as tarefas de investigação científica estão ainda fortemente localizadas nas Universidades e nos titulares da carreira docente universitária. Com o decréscimo populacional e a redução do número de alunos, torna-se claro que não faz muito sentido continuar a alimentar as equipas de investigação através de docentes universitários. Por outro lado, exige-se alguma solidez às equipas de investigação. Isto é, o modelo em que todos os investigadores excepto o mais sénior são bolseiros sem qualquer espécie de estabilidade profissional a médio prazo pode funcionar temporariamente, mas dificilmente faz escola. É urgente encontrar a forma de, sem abrandar as exigências de produtividade, se conceder estabilidade à profissão de cientista e investigador. Estou cansado de formar jovens investigadores portadores de extraordinárias qualidades e qualificações e vê-los partir por falta de oportunidades para desenvolverem em Portugal a sua carreira. E isto aplica-se tanto a portugueses como a estrangeiros.

Avaliação inexistente ou pouco séria dos resultados

Este é talvez o factor mais desmotivante para quem se dedica de alma e coração à Ciência no nosso País. Como é possível, por exemplo, que uma equipa de cientistas passe 3 anos da sua vida em dedicação exclusiva à realização de um projecto de investigação que concretiza todos os objectivos, de si ambiciosos, que contratualizou com a entidade financiadora (no caso a FCT) e que, no final, receba sucessivas auditorias financeiras (para verificação dos trabalhos dos contabilistas) e não lhe seja reportada nenhuma análise ou atribuídos quaisquer créditos relativos ao seu desempenho científico? Em minha opinião, tal circunstância (que é a nossa realidade), é bem reveladora (ou parece ser) de uma falta de respeito dos gestores da Ciência nacionais pela actividade daqueles que é suposto apoiarem, avaliarem e valorizarem: os cientistas e investigadores. Mas, mesmo nos casos em que a avaliação científica existe, nem sempre esta é transparente ou correctamente executada. Vou referir apenas dois exemplos que me parecem bem ilustrativos: i) a atribuição pela FCT de bolsas de doutoramento assenta, em minha opinião erradamente, excessivamente na classificação de licenciatura do candidato, ignorando praticamente outros indicadores de actividade do candidato (como número de artigos publicados, comunicações orais apresentadas em congressos científicos internacionais, participação em comissões organizadoras de congressos, em projectos de investigação ou de desenvolvimento de protótipos, etc...). Se esta forma de actuar é de si já muito discutível (em minha opinião, errada), é-o ainda mais porque as classificações de licenciatura são tomadas pelo seu valor absoluto. Isto é, um 16 é sempre um 16, independentemente de ter sido obtido numa escola prestigiada em curso onde a média nos últimos, digamos três anos, é 13, ou numa escola de qualidade duvidosa em curso onde a média nos últimos três anos é 16. Está-se assim a promover as escolas menos qualificadas e a inflação de classificações, e a desaproveitar o esforço para além da nota de licenciatura de jovens investigadores formados nas melhores escolas. A Universidade de Coimbra tem sido, neste particular, particularmente prejudicada. Porque não se exige aos candidatos (ou às suas escolas) apresentação de indicadores estatísticos das classificações atribuídas nos anos mais recentes, para devido enquadramento das classificações dos concursantes? Porque não são tidos em consideração devidamente os demais indicadores de desempenho dos candidatos? A quem interessa o sucesso da mediocridade?; ii) A formação dos painéis de avaliação dos projectos submetidos a concurso (não há avaliação de desempenho, apesar dos Relatórios que se exigem e que, estou certo, ninguém lê!...) e de avaliação das Unidades de Investigação é essencial para o funcionamento adequado do sistema. Porquê então os critérios da escolha dos painéis não serem conhecidos? Porque não se disponibilizam "on line" os currículos científicos dos avaliadores? Porque não são fornecidos os relatórios dos avaliadores, mas apenas extractos cujo critério de escolha também não é conhecido? Por outro lado, como se pode pretender fazer uma avaliação séria de uma Unidade de Investigação com base numa visita de algumas horas? Porque não se faz a avaliação de facto dos resultados dos projectos de investigação?  

O Plano Tecnológico

Guardei para o fim este tópico porque, ao contrário dos demais, neste caso tenho de me pronunciar sobre virtualidades, sobre coisas que ainda não se concretizaram. Apesar de tão propagandeado, como disse acima o "Plano Tecnológico" pode resumir-se até agora a um grande "zero". O que mais deve ser motivo de preocupação é que se acenam com milhões, mas, a prática faz pensar que não se dispõe senão de tostões!... Alguns indicadores: i) a FCT está agora a pagar apenas as verbas de formação associadas às bolsas de doutoramento relativas ao ano de 2003 (nesta altura, grande parte dos bolseiros já é doutor), não se sabendo quando serão pagas as verbas de 2004, 2005 e 2006, ou mesmo se serão pagas; ii) recentemente, os bolseiros da FCT receberam uma carta onde se dizia que, no caso de o pagamento da bolsa não ter sido integral, tal se devia a falta de fundos, esperando-se efectivação do acerto de contas posteriormente; iii) estão por pagar saldos de projectos de investigação já concluídos há anos, sem que seja dado um prazo, pela FCT, para efectivação dos pagamentos; iv) o pagamento dos financiamentos plurianuais às Unidades de Investigação estão atrasadíssimos, prevendo-se que o segundo semestre de 2006 possa mesmo vir a não ser pago em alguns casos; v) o financiamento do programa de reequipamento científico nacional tem vindo a ser sistematicamente protelado, tendo já resvalado para 2007, contrariamente ao inicialmente previsto; vi) as bolsas a atribuir e os projectos a concursar durante 2006 foram inicialmente indicados como só podendo ter início em 2007; vii) os prémios "Estímulo à Excelência", que em 2005 foram pagos em Janeiro-Fevereiro, não foram ainda pagos em 2006, nem se sabe quando e se irão ser... Outro indicador importante é o facto de as múltiplas "iniciativas" anunciadas pelo Governo o serem sem calendarização.

Por outro lado, não são claros os objectivos de algumas das medidas anunciadas, nem os critérios para as desenvolver. Por exemplo, quais os critérios que presidiram à escolha das instituições de investigação científica estrangeiras para possível instalação em Portugal? Porquê o MIT ou a University of Texas e não o Max-Planck-Institute ou o National Research Council of Canada? Porquê a actual obsessão em privilegiar os Laboratórios Associados nos financiamentos (manifestada inclusivamente em alterações a regulamentos de concursos que recentemente aconteceram), sem que tenha ainda sido feita a avaliação dos factores de custo/produtividade dos diferentes tipos de Unidade de Investigação? Não digo que algumas das medidas anunciadas não sejam bem vindas, mas é preciso explicá-las e torná-las transparentes. O "Plano Tecnológico" não pode ser uma declaração de intenções mal explicada. Tem de ser um conjunto coerente de medidas calendarizadas, transparentes, inteligentes e bem explicadas. E para isso também é preciso que os responsáveis falem, e que falem com aqueles que podem ser os motores do desenvolvimento científico e tecnológico: os cientistas, os investigadores e também os empresários que têm demonstrado apostar na cultura tecnológica e na investigação e desenvolvimento.

Rui Fausto Lourenço nasceu a 7 de Janeiro de 1961 em Coimbra. Em 1984 obteve a sua Licenciatura em Química (Ramo Científico) na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), com a classificação final de 19 valores, tendo obtido 20 valores no Estágio Científico. Doutorou-se em 1988 em Ciências (especialidade: Química - Estrutura Molecular) pela Universidade de Coimbra, tendo obtido a sua Agregação em 2004. É, desde 1984, docente do Departamento de Química da FCTUC, onde actualmente ocupa a posição de Professor Associado.

Tem desempenhado várias funções dirigentes na Universidade de Coimbra, tendo sido Presidente do Conselho Pedagógica da FCTUC (de 1996 a 2000) e Vice-Presidente dos Conselhos Científico (2002-2004), Directivo (2002-2004) e Assembleia de Representantes (2004-2006) da mesma Faculdade. Foi também Presidente da Comissão Coordenadora dos Estágios Educacionais (Área da Química e da Física) da FCTUC e Coordenador da Licenciatura em Química. Actualmente é Presidente do Instituto de Investigação Interdisciplinar da Universidade de Coimbra e membro do Senado Universitário e da Assembleia da Universidade, para além de integrar a Comissão Directiva responsável pela Avaliação Internacional (European University Association) da Universidade de Coimbra e a Comissão de Especialistas para a Prefiguração do Museu das Ciências desta Universidade.

O seu envolvimento em actividades científicas é muito extenso. É investigador do Centro de Química de Coimbra, onde dirige o Laboratório de Espectroscopia Molecular a Baixa Temperatura, e é membro da American Chemical Society, da Society for Low Temperature Biology, da European Photochemistry Association, do European Molecular Liquids Group, da International Union of Pure and Applied Chemistry e da Sociedade Portuguesa de Química, sendo Presidente da Secção de Química-Física desta última sociedade científica. É também Vice-Presidente da Comissão Científica Internacional Permanente do European Congress on Molecular Spectroscopy, membro da Comissão Científica Internacional Permanente do Matrix Isolation Spectroscopy - Gordon Research Conference/Euroconference, e Coordenador Científico de uma vintena de projectos de investigação científica financiados por diversas instituições nacionais e estrangeiras (Fundação para a Ciência e a Tecnologia, GRICES, SECyT, CAPES, Fundação Calouste Gulbenkian), que envolvem grupos de investigação de diversos países (Israel, Polónia, França, Argentina, Brasil, Alemanha, Rússia, Finlândia, Espanha, Eslovénia, Turquia, Bélgica, Estados Unidos, Canadá, Índia).

É membro do Editorial Board de quatro revistas científicas internacionais, e a sua actividade editorial inclui a publicação de vários livros, entre os quais se podem destacar as seguintes obras: "Recent Experimental and Computational Advances in Molecular Spectroscopy", Ed. R.Fausto, NATO-ASI Series C306, Kluwer Inc., Amsterdão (Holanda), 1993; "Low Temperature Molecular Spectroscopy", Ed. R.Fausto, NATO-ASI Series C483, Kluwer Inc., Amsterdão (Holanda), 1996; "Molecular Spectroscopy and Molecular Structure - Part B" - J.Mol.Struct., Vols. 563 a 566 (números especiais), Eds. A. Barnes e R. Fausto, Elsevier Science, Amsterdão (Holanda), 2001; "Fronteiras da Ciência: Desenvolvimentos Recentes, Desafios Futuros", Ed. R. Fausto, C. Fiolhais e J.F. Queiró, Colecção Ciência Aberta, Gradiva/Imprensa da Universidade de Coimbra, Lisboa, 2003, ISBN 972-662-923-3 e "Tempo e Ciência" - Ed. R. Fausto e R. Marnoto, Colecção Ciência Aberta, Gradiva, Lisboa, 2006, ISBN 989-616-096-1.É também júri de várias revistas internacionasis da especialidade, entre os quais de contam o Journal of the American Cheical Society, Journal of Physical Chemistry, Physical Chemistry Chemical Physics, Journal of Molecular Structure, Theochemistry, Vibrational Spectroscopy, Journal of Photochemistry and Photobiology, Journal of the Chemical Society of Pakistan, Revista Portuguesa de Quimica, Spectrochimica Acta., Canadian Journal of Chemistry, CryoLetters, Journal of Organic Chemistry, Journal of Luminescence, International Journal of Quantum Chemistry, Journal of Computional Chemistry, International Journal of Refrigeration, Journal of Molecular Liquids, Journal of the Brazilian Chemistry e International Journal of  Molecular Sciences.

Participou e organizou um número elevado de reuniões científicas e congressos nacionais e internacionais, tendo sido Presidente das Comissões Científica e Organizadora dos congressos internacionais "MATRIX 2005 - Recent Progress and New Perspectives in the Physics and Chemistry of Matrix-Isolated Species", Funchal, 2005, do "CRYOBIOMOL 2003 - Low Temperature Biology: From the Low Temperature Physics and Chemistry of Biological Molecules to Live in Extreme Low Temperature Conditions", Coimbra, 2003, do "XXV Congress on Molecular Spectroscopy", Coimbra, 2000, do "International Symposium Frontiers of Science: Recent Developments and New Challenges", Coimbra, 1998, Director dos Institutos de Estudos Avançados da OTAN "Low Temperature Molecular Spectroscopy", Sintra, 1995, e "Molecular Spectroscopy: Recent Experimental and Computational Advances", Ponta Delgada, 1992, e membro das Comissões Organizadora ou Científica de mais cerca de uma dezena de reuniões científicas e congressos internacionais ou nacionais.

É autor de cerca de 200 artigos científicos publicados em prestigiadas revistas internacionais sujeitas a avaliação científica, tendo recebido, em 2002, o prémio Royal Society of Chemistry Journals Grant for International Authors.

O seu trabalho científico tem sido abundantemente referenciado a nível internacional, contando-se cerca de 1500 citações aos artigos de que é autor ou co-autor, de acordo com a informação disponibilizada no Science Citation Index. Durante o ano de 2002 o artigo "Synthesis, Characterization and Biodistribution of Biphosphonates Sm-153 Complexes: Correlation with Molecular Modelling Interaction Studies", publicado no Journal of Nuclear Medicine, foi o 4º artigo na lista de "downloads" da revista. O livro "Pascal: Programação e Aplicações", de que é co-autor, é indicado como manual de estudo em várias Universidades e Institutos Politécnicos portugueses. O Livro "Recent Experimental and Computational Advances in Molecular Spectroscopy" é indicado como manual de estudo na Universidade Técnica de Compenhaga (Computer Modelling in Chemistry - Licenciatura em Química), e o artigo "A Critical Assessment of Classical and Semi-Classical Models for Electron Transfer Reactions in Homogeneous Solutions", publicado em 1997 e de que é co-autor, é indicado como bibliografia da disciplina "Electron Transfer Processes" (Licenciatura e Mestrado em Química - University of Newcastle upon Tyne - Faculty of Science Agriculture and Engineering).

Ao longo da sua carreira docente, tem leccionado aulas de diversas disciplinas de cursos de Licenciatura e Mestrado, desde cursos de Química Geral e Química-Física até cursos mais especializados em Química-Física Molecular e Espectroscopia Molecular. Orientou ou co-orientou 10 mestrados, 12 Doutoramentos e 9 pós-doutoramentos e cerca de 3 dezenas de Estágios Pedagógicos. Foi Professor Visitante da Universidade de Goettingen - Alemanha, em 2002.

Para além das suas actividades científicas, tem também participado activamente noutras actividades, podendo referir-se a sua actividade no domínio musical, que incluiu a gravação de um disco de música rock no final dos anos 80 do século vinte, e do desenho de caricatura. É também interessado pelo estudo da Banda Desenhada, em especial da Comics norte americana e da banda desenhada franco-belga e pelo xadrez.

Rui Fausto Lourenço foi um dos cerca de 70 cientistas galardoados com o Prémio "Estímulo à Excelência" do Ministério da Ciência e do Ensino Superior e da Fundação para a Ciência e a Tecnologia.

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