O Ensino Politécnico deve diferenciar-se, com vantagens para todos, muito principalmente, para o país e o desenvolvimento das regiões
A democratização do ensino superior surge como resposta à evolução das sociedades modernas no sentido de uma crescente qualificação dos seus recurso humanos. No entanto, tal como as necessidades são diferenciadas as respostas também poderão sê-lo, fazendo todo o sentido a existência de sistemas a oferecer formações com características distintas: o universitário mais teorizado e preparando o aluno para uma carreira de maior especialização e o politécnico, orientado para a prática e para uma entrada mais directa no mundo do trabalho, com uma formação polivalente. Mesmo que tal não se verifique ainda, em muitos casos é fundamental que se defina e assuma esta diferenciação, reconhecendo a existência de distintos mercados ao nível da procura. Muitas micro e pequenas empresas, que constituem a base das economias regionais, precisam, prioritariamente, de profissionais com capacidades, conhecimentos e competências que respondam directamente às suas necessidades o que não exige grande especialização técnica mas um contacto muito directo com a realidade dessas empresas. Assumir esta diferenciação, trás vantagens evidentes para todas as partes envolvidas: desde o estudante que se sente realizado e capaz de cumprir o seu papel, ao empregador que encontra o colaborador com o perfil ajustado, passando pelo professor e o próprio estado que vêem o seu esforço compensado pela correcta e eficaz utilização dos recursos.
Bolonha tem duas centralidades: o estudante e o território
Bolonha veio reforçar a ideia de mudança e a necessidade de uma gestão mais próxima dos problemas. Não é possível querer implementar Bolonha e manter uma centralização incompreensível dos processos de decisão e de gestão. Ao contrário do que muitos julgam, Bolonha permite uma verdadeira autonomia e independência das instituições de ensino deixando-as escolher a sua própria estratégia e levando-as a assumir os seus próprios riscos. Mas tal só será verdadeiramente possível se deixarmos funcionar a democracia o que pressupõe permitirmos o desenvolvimento de soluções locais e regionais para os problemas locais e regionais. Enquanto o Estado mantiver a atitude centralizador e recusar a regionalização ou algo equivalente, todos estes processos estarão inquinados à partida, prestando-se a muitas e variadas incompreensões. O Governo tem de decidir até onde é para decidir e dar liberdade e garantir as condições de mercado a partir daí. Assim não é possível realizar Bolonha sem tomar em conta as suas duas centralidades. Em primeiro lugar o estudante como actor principal do processo educativo e futuro dinamizador do desenvolvimento do país, através da sua actuação como profissional. Em segundo o território, pois tudo gira em torno de uma realidade que dá substância às ideias, aos objectivos, às acções; realidade essa que se pretende distintiva e diferenciadora e não robotizada.
Bolonha não é um processo normativo. É, fundamentalmente, um processo de flexibilização
Bolonha pode ser uma catástrofe se vista como uma forma de atenuar as particularidades de cada país, região e estabelecimento de ensino, com vista a uma uniformização. Mobilidade e flexibilidade não têm nada a ver com standardização. De facto, seria possível, numa sociedade anti-democrática, fazer de Bolonha um processo de imposição de sistemas equivalentes nos diversos países que formavam estudantes "iguais". Bolonha é, mais uma vez, se vista numa perspectiva correcta, mais um desafio à democracia pois pretende a mobilidade a partir da flexibilidade o que só é possível com um nível de participação no processo completamente transversal.
Qualquer ranking do ensino superior, no quadro actual, terá que incluir indicadores muito mais abrangentes que a simples publicação de artigos ou trabalhos pelos docentes
Como se faz a aferição, para o ranking do ensino superior, da acção desenvolvida por instituições que, de forma clara, contribuíram para atenuar o processo de desertificação de uma região e deram uma nova dinâmica às economias regionais? Se os sistemas são distintos não é possível fazer a sua avaliação com base nos mesmos parâmetros: se um docente do Politécnico não publicou qualquer trabalho científico mas participou activamente num projecto de desenvolvimento local, qual a forma de avaliação? O país cortou com uma prática de ensino técnico, extremamente próximo das necessidades dos empregadores, e julgou ser possível colmatar essa lacuna através da formação profissional e da criação de cursos superiores politécnicos. As nossas cabeças pensantes esqueceram-se do trabalho principal: ter uma estratégia, definir objectivos e encontrar um caminho. O mesmo responsável que acabou com o ensino técnico há trinta anos, sem ter perspectivado uma alternativa, vem hoje propor soluções que não assumem claramente a necessidade de duas vias para o ensino superior: politécnico e universitário. Para baralhar ainda mais fala-se em Universidades Politécnicas.
O Ensino Politécnico só existirá, verdadeiramente, quando se constituir como um dos elementos da competitividade de um determinado território, trabalhando em rede com os restantes parceiros do desenvolvimento
Definiu Augusto Mateus a competitividade de um território como a capacidade que as empresas, as indústrias, as regiões, as nações e as regiões supranacionais têm de gerar, quando expostas a concorrência internacional, níveis de rendimento e de emprego relativamente elevados. E noutro parágrafo do seu trabalho sobre este tema refere: este conceito de competitividade, como geradora de valor, pressupõe uma rentabilização de todos os meios colocados à disposição da empresa, da região ou do país (do território) implicando, necessariamente, um aumento de produtividade, muito embora - de forma crescente - se trate de uma produtividade com novas dimensões [in Mateus, Augusto; Madruga, Paulo; Rodrigues, Duarte - Pirâmide da Competitividade Territorial das Regiões Portuguesas - Estudos Regionais, INE 2000 (site INE)]
A rentabilização dos meios, ao contrário do que se passava há alguns anos, passa também, e muito principalmente em regiões como o Alto Alentejo, pela capacidade de requalificar os seus recursos humanos, permitindo que eles se mantenham na região. Região esta que terá que ser mais atractiva e terá que ter a capacidade de oferecer uma qualidade de vida igual ou mesmo superior a outras zonas do litoral. Este objectivo está nas mãos do poder regional, agora apenas representado pelas autarquias, que é o único capaz de criar as condições de competitividade necessárias ao desenvolvimento no actual contexto.
Tal como um ovo que não é fecundado, não reproduz, a vida de uma sociedade está dependente de recursos humanos que criem novas ideias e conhecimentos.
As zonas deprimidas do interior carecem, essencialmente, de elementos que fecundem as ideias pois sabemos que, mesmo em situações adversas, onde há pessoas com capacidade e competência, é possível o desenvolvimento. E o Ensino Superior Politécnico criou as condições para esse salto... mas muitos ainda não o compreenderam!
Rui Pulido Valente
*docente na Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Portalegre