O país e o sistema de ensino superior aderiram a Bolonha, talvez se possa dizê-lo hoje, sem perfeita consciência das implicações. Votada na Assembleia da República uma revisão minimalista da Lei de Bases, avizinham-se reestruturações em várias áreas, mas os equívocos abundam. E as reestruturações decorrentes de Bolonha, mal definidas, vão ligar-se com outras reestruturações - a do modelo de financiamento, a da fórmula de fixação de contigentes de efectivos, a das carreiras. As relações entre todas vão tornar-se evidentes, e a reunião dos artigos que recebemos para este número da Revista para secções diversas num mesmo dossier "Reestruturações", obedece já a essa abordagem.
Bolonha implica uma nova Pedagogia, refere Amélia Loja, pondo em causa que do processo tenha de resultar uma redução do peso do trabalho lectivo, maxime uma redução dos postos de trabalho. Quando se ouve em numerosas instituições públicas e privadas, ou a profissionais da comunicação social, associar a implementação do processo a uma redução do emprego docente, ficamos com a percepção de que as instituições continuam a adoptar uma filosofia de gestão dolorosamente errada.
A nova fórmula de financiamento, divulgada pelo Ministério em extenso documento técnico, é um prémio à qualidade, defende João Vasconcelos Costa, que sugere aperfeiçoamentos diversos e critica o factor de coesão que atenua uma maior diferenciação. Julgamos, entretanto, que vale a pena tomar consciência de que as instituições que perdem financiamento estão a repercutir as restrições nos seus docentes em situação mais precária que muitas vezes são os mais jovens e os mais qualificados.
Carlos Ceia critica a actual forma de estabelecimento de rácios estudantes / docentes que o autor anterior também aflora. Trata-se de matéria que tem merecido apelos à reflexão por parte do SNESup e que mereceriam também contributos de colegas de outras áreas de formação.
Rui Verde, em artigo, aliás polémico, que reproduzimos com autorização do Diário Económico, questiona o empobrecimento da vertente culturalizante do ensino universitário, alegadamente decorrente do processo de Bolonha.
Reservamos a parte final deste dossier para uma breve referência à metodologia de trabalho que está a ser seguida pela Comissão Especializada existente no âmbito do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP) na propositura de novas designações para os cursos do primeiro ciclo de formação. O resultado dificilmente será consensual, mas é preciso ter consciência da complexidade do trabalho que a Comissão tem pela frente.