A propósito de Virginia Tech: Uma Universidade Exemplar

Os trágicos acontecimentos do passado dia 16 de Abril, em que 32 pessoas, das quais 27 estudantes e 5 professores de várias nacionalidades e origens geográficas, foram mortos por um estudante sul-coreano, trazem-me à memória os tempos lá passados como estudante de pós-graduação (PhD), entre 1987 e 1992.

Não vou comentar a natureza dos acontecimentos, possíveis causas, etc..., que deixo para os psicólogos e sociólogos sérios (aproveito para deixar aqui uma sugestão de leitura: o breve artigo de opinião de hoje, 22 de Abril, de Alberto Gonçalves, no DN intitulado "O massacre da sensatez").

Pretendo apenas destacar o que é aquela instituição de ensino superior universitário, exemplar a numerosos títulos, local de estudo e convívio internacional, comunidade académica para mais de 28 000 alunos (22 000 de graduação e 6 000 de pós-graduação) de mais de 100 países e de 1300 professores. Trata-se de uma instituição do tipo "land-grant", fundada em 1872, das primeiras a benefi ciar de uma lei federal ("Morrill Act") que pretendia atribuir a determinados estados porções signifi cativas de terrenos rurais para estabelecimento de instituições de ensino principalmente nas áreas de agricultura e engenharia ("Agriculture & Mechanical Colleges") e aproximar a universidade das populações locais. No caso de Virginia Tech (http://www.vt.edu/), são cerca de 5000 ha de campus, só em Blacksburg (existem outros campus, fora da cidade).

À missão inicial juntou-se mais tarde, em 1914, a atribuição de uma importantíssima missão de ligação entre o conhecimento e as populações rurais: o papel de extensão e cooperativismo agrícola, um pilar essencial do sucesso da agricultura americana, praticamente extinto em Portugal e em muitos paises europeus.

Este papel ainda hoje é bem visível em Virginia Tech no "College of Agriculture and Life Sciences", em que o respectivo "Dean" é simultâneamente director da "Virginia Agricultural Research and Extension Station" (www.vaes.vt.edu/about/about.html). Na área da veterinária, a universidade é a sede do "Virginia-Maryland Regional College of Veterinary Medicine", ou seja, esta Faculdade de Medicina Veterinária serve 2 estados. Até aos anos 70, a instituição era apenas conhecida por "Virginia Polytechnic Institute" (VPI), no entanto, em 1970, devido à expansão do corpo docente, número de alunos e, acima de tudo, a qualidade e prestígio nacionais que tinha adquirido, em particular sob a liderança do reitor Marshall Hahn, passou a designar-se pelo nome actual, "Virginia Polytechnic Institute and State University", o que pode até servir de exemplo às re-estruturações que se desenvolvem em Portugal no tocante a universidades e politécnicos.

A universidade oferece 60 programas de graduação (BSc, de 4 anos) e 140 de pós-graduação (MSc, mais 2 anos e PhD mais 2 anos sobre o MSc). Trata-se de um modelo "standard" nos Estados Unidos, onde não foi necessário implementar nenhum "processo de Bolonha". Em geral os programas oferecidos caem nas áreas da Agricultura, Veterinária, Engenharia, Economia e Gestão, e também Arquitectura (incluindo Arquitectura Paisagista).

Em diversas áreas, os grupos de investigação e respectivos investigadores e docente são lideres mundiais (p.ex. Me-citar apenas dois) e conta alguns Nobel entre os seus "alumni" (Buchanan, p.ex. na Economia). Não querendo discutir a subjectividade dos rankings, Virgínia Tech encontra-se entre as melhores do país no que diz respeito a diversos parâmetros, sendo considerada em 34º lugar na lista das universidades públicas e 77ª a nível total. Lembro que existem 2618 universidades (incluindo Colleges) nos Estados Unidos. Cursos como Direito e Medicina não são ministrados, dado serem estes domínios da universidade "rival", University of Virginia (http://www.virginia.edu/), fundada no princípio do séc. XIX (1819) por Th omas Jeff erson (uma curiosidade: o primeiro convidado para reitor foi o nosso Abade Correia da Serra, que teve de declinar devido á sua carreira de diplomata). Outra característica observável nesta universidade, como aliás em muitas outras dos EUA, é a existência de um forte "Continuing Education Center" (www.cpe.vt.edu/home/about/index.html), dedicado ao "estudo ao longo da vida", algo que parece agora estar muito na moda aqui em Portugal.

Também como em todas as universidades do país, o desporto tem papel de relevo, no futebol americano, basketball, baseball, etc... Mas para mim, o mais notável foi observar a interacção entre estudantes de praticamente todo o mundo, reflectindo um microcosmos cultural, tão característico aliás do que se passa no resto do país, e pelo qual são conhecidos os EUA. Nunca me hei-de esquecer que foi aqui em 1987 que conheci pela primeira vez um albanês. Esta é uma das duas vertentes da característica de "universitas" que observei nesta casa: internamente, a constante troca de ideias, pontos de vista entre professores e alunos, entre nacionais norte-americanos e pessoas de outras partes do mundo, num fl uir rico e pleno.

Externamente, a projecção universal do saber aqui gerado, que não se restringe aos EUA e muito menos ao estado da Virgínia, pois não há "ciência regional".

É sem dúvida um contraste com a pobreza política actual dos EUA, dirigido por homens medíocres e irresponsáveis.

É também bom lembrar que se encontram nos EUA cerca de 400 000 cientistas que "emigraram" na última década, provenientes da União Europeia, o que constitui sem dúvida uma das razões pelas quais a Europa tenta a todo o custo - mas com pouco sucesso a meu ver - atrair estudantes e cientistas de todo o mundo, através de programas como o ERASMUS-Mundus.

Na área académica a universidade pauta-se por um rigor e qualidade como tenho visto em poucos lugares do mundo, e considero-me razoavelmente conhecedor dos sistemas europeu, americano (norte e sul) e asiático.

O corpo docente é contratado primordialmente pelo mérito e progride com grande exigência por parte da instituição.

Existe, aliás, um inteligente sistema de contratação em que ao docente pode ser atribuída uma percentagem diferenciada, consoante as suas vocações, p.ex. 85% investigação e 15% ensino, ou vice-versa. As avaliações são para valer e incidem sobre as diversas componentes da actividade académica, mas tendo a publicação científica e a excelência no Ensino, papel primordial.

Tive oportunidade da acompanhar casos de avaliação (anual) de alguns professores, bem como o processo de contratação de novos docentes.

Os medíocres têm pouca probabilidade de singrar aqui.. É assim 100% ? Naturalmente que não, mas os casos de incompetentes são a excepção e não a regra, e isso explica o sucesso da universidade. Todos os docentes que tive no programa de PhD tinham crédito firmados nas suas áreas científicas e, uns mais que outros, eram bons professores, apresentavam-se pontualmente nas aulas, sabiam do que falavam, eram acessíveis, informais, disponibilizavam-se com frequência para apoiar os estudantes mais fracos, etc... Não me lembro uma única vez de ter chegado a uma aula e o docente não estar lá. Anualmente cada College elegia, a par com os melhores alunos do curso, os docentes que melhor desempenho tinham tido no ano lectivo transacto, constituindo um estímulo para os outros. Os meios disponíveis, em termos de equipamentos, salas e laboratórios, e falando do meu departamento ("Plant Pathology"), não diferiam muito das condições de cá.

Aliás recordo um colega que visitou a Mitra e muito admirou as novas instalações que tinham sido inauguradas, em 1997, muito melhor do que as que ele dispunha. Os projectos de colaboração entre departamentos e entre colegas de departamento eram correntes e altamente sinergísticos, não era necessário recorrer a colegas a 1500 km de distância para os iminternacional ser uma das componentes essenciais ao sucesso desta casa. A universidade dispõe inclusivamente de um campus em Riva San Vitale, na Suiça, onde os estudantes de pós-graduação vêm efectuar estudos europeus, em particular de Arquitectura.

Embora seja uma universidade claramente "técnica" onde as ciências reinam, não deixou descurar as Artes e Humanidades, sendo conhecida em muitas áreas ligadas à Música, Literatura, Filosofia e Estudos Sociais. Associado a isto, encontramos uma intensa actividade cultural expressa em numerosos eventos musicais, teatrais, palestras, etc.. Possui uma excelente orquestra sinfónica e outra de metais e de jazz igualmente de qualidade.

Como nota curiosa: em 1990, o chefe do Departamento de Música conseguiu a apresentação da sua obra para pequena orquestra de metais denominada "A lenda de Alcobaça" (sobre Pedro e Inês de Castro) ser apresentada em Portugal, com execução em Lisboa e Alcobaça, pela Orquestra da GNR. O compositor foi agraciado com a chave da cidade de Alcobaça. A Semana Internacional (calendar.vt.edu/main.php?view=event&eventid=1171899917091) é um dos momentos altos na cidade, com feira em que todos os paises representados na universidade apresentam os seus produtos e cultura.

As associações de estudantes internacionais (de que deixo o exemplo da do Nepal: www.nepal.org.vt.edu/events) têm um importantíssimo papel de congregar e apoiar os seus nacionais, como também ajudar a universidade a gerir as questões do foro internacional.

De referir igualmente o "Virginia Tech Corporate Research Center" (http://www.vtcrc.com/), a tal ligação universidade-empresas de que tanto se fala em Portugal. Aqui se encontram sediadas empresas conhecidas como p.ex. a Honeywell, e onde a interacção é intensa.

Em 1997, foi considerada nos EUA, pelo "National Council for Urban Economics Development" como a que exerceu a melhor prática em transferência tecnológica em centros de investigação.

A gigantesca e rica biblioteca, "Newman Library", possui um acervo bibliotecário impressionante, acesso permanente, 7 dias por semana, 24 horas por dia, mas é conhecida acima de tudo pelo seu original e inovador sistema de catalogação bibliotecária, o "Virginia Tech Library System" (VTLS) que tem equipado e asistido grandes bibliotecas como a Biblioteca Lenine em Moscovo, considerada a maior do mundo. Recentemente, e corporizando um desejo antigo, constituiu-se o "Virginia Bioinformatics Institute" (VBI), dedicado à bioinformática aplicada à Saúde, Ambiente e Agricultura. O sector informático é aliás emblemático na universidade e na cidade que a acolhe. Em 2003, foi contruido no Dept. de Engenharia Informática o 3º computador mais rápido do mundo, o System X (www.tcf.vt.edu), constituido por 1100 máquinas, que custou USD$ 5 milhões. O centro de realidade virtual, CAVE (www.cave.vt.edu), é reconhecido mundialmente pela sua excelência, e a "Blacksburg Electronic Village" (BEV) (http://www.bev.net/), liga a comunidade de forma electrónica há cerca de 20 anos, uma das mais antigas redes do país. É aquilo que se designa por um "outreach project" por parte da universidade em relação à cidade de Blacksburg, e que bem poderia servir de exemplo para a UE-Évora ("Évora, Distrito Digital"), em tempos de crise como agora. De um modo geral, estes projectos de sucesso foram concebidos e executados com a colaboração investigador-estudante. Um caso paradigmático foi o do avião supersónico X-30, contruido em 1989 pelo Dept. de Engenharia Aerospacial, e que foi seleccionado para representar os EUA no Salão Aeronáutico de Paris.

O enquadramento geográfico é igualmente excelente e muito agradável.

Virginia Tech encontra-se situada numa pequena cidade, Blacksburg, de apenas 40 000 habitantes, mais pequeno portanto que Évora. A localização, nas "Blue Ridge Mountains" (parte da cadeia dos Apalaches) é inspiradora. A qualidade de vida no tocante a qualidade do ar, vias de acesso, baixo custo, etc... é muito elevada. A cidade encontra-se bem alto no ranking de pequenas cidades do interior, no que respeita a qualidade de vida. Conheci diversos prestigiados professores que se deslocaram para aqui de outras universidades famosas como Cornell, precisamente pelos elevados padrões de vida.

Não creio, sinceramente, que o recente incidente, por muito grave que tenha sido (inegável) vá estragar a reputação deste destino de milhares de estudantes que vêm de todas as partes do mundo.

 

Manuel M. Mota *
*Departamento de Biologia da Universidade de Évora. Este texto, escrito em 22 de Abril de 2007, e desde logo publicado naquela Universidade, foinos enviado pelo seu autor.

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