Luís Moutinho
"Não há dinheiro, temos que cortar"
"Há que acabar com o desperdício"
"back to the basics"
Palavras retiradas do mantra que nos governa.
Traços do ambiente que nos pretende preparar para tudo aceitar.
Na verdade, palavras ocas.
Se entendermos que o memorando da Troika serve de referencial ao ataque ao Estado, a verdade é que Nuno Crato é o Ministro que proporcionalmente mais corta. Corta mais do triplo do que a fidelidade ao memorando impunha. Corta muito, corta demais.
Tínhamos já a ideia de que a profundidade das ideias de Crato para a Educação não supera a que se pode formar a ouvir uma conversa na paragem de autocarro ou uma algaraviada do taxista lá do bairro. Crato é, no que concerne a educação, uma espécie de homem do cliché. É vazio e perverso o discurso do "back to the basics", quando precisamente nunca conseguimos sair do básico nem adaptar o sistema de ensino à massificação que felizmente a democracia nos trouxe. E é esse um dos grandes dramas do sistema de ensino, e a razão pela qual muito há que nele investir até que se possa extrair resultados. A fuga a esse investimento cria um ensino a várias velocidades e a exclusão dos menos preparados, que não são necessariamente os menos dotados, esforçados ou interessados. A deriva da educação e do ensino para a esfera do financiamento privado promove as assimetrias e as desigualdades e desresponsabiliza o estado, todos nós, pelos resultados da escola.
A criação da ideia de que o Ensino Superior português vive no luxo, na redundância e no desperdício, é mal intencionada e serviu para preparar o caminho para o que se assiste. Há muito que o sistema vive em anorexia, cortando no essencial. Há muito que o sistema é subfinanciado. Agora, o ensino superior fará face a mais um corte brutal. Mais de 178,9 milhões de euros (220 milhões quando incluídas as Fundações), dizem os jornais. Quase tanto quanto o compromisso da Troika pedia de sacrifício a todo o sistema de educação. De 1140 para 917 milhões de euros: 20 % de queda de orçamento de ensino superior e ação social, relativamente a 2010...
Quando as dificuldades financeiras ameaçam afastar os jovens do caminho da qualificação, Crato introduz uma redução de cerca de 8% (de 70,9 para 65,7 milhões de euros) ao orçamento da Ação Social . O que está a ser desprezado não é o futuro de um conjunto de estudantes. É todo o princípio de que o futuro dos portugueses passa por quebrar o ciclo de dependência gerada por décadas de ignorância e obscurantismo. O tal obscurantismo elitista por que Crato tanto suspira, saudoso.
Para Crato, gastamos demais com a educação, o despesismo é grande e o esforço financeiro inútil. A verdade, é que o nosso país, padecendo de um défice atávico de qualificação, torna-se sob Crato o país da União Europeia com a menor despesa de educação (em percentagem do PIB). São números, Crato!
3,8% quando a média da UE é de 5,5%. Mesmo em 2010, antes do seu ataque à Educação, antes de ser posta em marcha a etapa final do processo de elitização do acesso à educação, a noss despesa andava pelos 5,0%. 10% abaixo da média europeia! Investíamos ainda menos do que devíamos. Agora, somos mesmo o lanterna vermelha no esforço pelo futuro.
Mas claro, Crato acha que se justifica, porque para ele há doutores a mais e não é preciso tirar um curso para trabalhar. É preciso é afastar os jovens do ensino superior, que não é para todas as cabeças... Talvez por isso tema fazer alguma coisa para mudar a maior obscenidade do ensino em Portugal e que consiste numa taxa de abandono escolar submundista. Continuaremos a ser um dos países ocidentais com mais baixa taxa de conclusão do ensino secundário. E lamentamos.
Mas estamos dispostos a fazer alguma coisa para deixar isto bem claro?