Autor: João Miguel Almeida
Editora: Edições Nelson de Matos
Publicado em 2008, este livro corresponde à dissertação de Mestrado do autor, orientada por Fernando Rosas e arguida por António Costa Pinto, baseada numa profusão de fontes: periódicos, monografias, artigos e entrevistas com personalidades do activismo católico da época, muitas delas realizadas entre 1997 e 2000. Embora se debruce também sobre o posicionamento da igreja católica e de activistas com preocupações sociais, como o Padre Abel Varzim, desde os primórdios do Estado Novo, é apenas a partir de 1958, com a participação de muitos católicos na campanha de Humberto Delgado e a carta do Bispo do Porto a Salazar, que o autor considera poder falar-se de "oposição católica", não totalmente identificável com o conceito de "catolicismo progressista", conotado internacionalmente com católicos que aceitavam um diálogo, ou mesmo uma cooperação com o marxismo no domínio da questão social.
Acessível e mesmo cativante, o livro explica como a partir do trabalho social, sobretudo nas estruturas da Acção Católica Portuguesa, muitos jovens de formação universitária, alguns mesmo sacerdotes, vão concluindo ser necessário romper com o regime, perante a hostilidade de outros sectores comprometidos com a "situação", a reprovação ou a prudência do Cardeal Cerejeira e da quase totalidade do Episcopado, e até as ameaças de Salazar contra a continuidade da Acção Católica, que não estaria garantida pela Concordata, ou só o estaria se não fizesse política, ou melhor política fora da "frente nacional" entre o regime e a Igreja. Perante o leitor evoca-se uma sucessão de acontecimentos: "o golpe da Sé", as crises académicas de 1962 e de 1969, a participação nas eleições por listas oposicionistas, a criação de cooperativas, a remoção do Padre Felicidade Alves das suas paróquias, a publicação dos GEDOC's, a ala liberal do Marcelismo, a constituição da SEDES, a vigília da Capela do Rato.
Apesar do "manifesto dos 101" divulgado em 1965, esta consciencialização nunca deu lugar à formação de um Partido Democrata Cristão, temida por Salazar (que, depois do acesso ao poder, lutou pela dissolução do Centro Católico), e não desejada, segundo o autor, nem pelo Episcopado, nem pela Santa Sé, nem pelas Democracias Cristãs estrangeiras (que valorizavam a permanência do regime e o seu alinhamento internacional) nem sequer pelos próprios, que, assim como tinham rejeitado quase à partida a formação de sindicatos cristãos, acabaram por escolher lutar ao lado dos não católicos nas várias formações oposicionistas, alguns deles na clandestinidade e/ou na via da luta armada (PRP-BR). O pós 25 de Abril, sobre o qual Fernando Rosas, no prefácio, insere um pequeno apontamento, assistiria à inserção dos protagonistas em todos os partidos, do CDS à extrema-esquerda.
João Miguel Almeida
Edições Nelson de Matos