Trabalho e sindicalismo em tempo de globalização: reflexões e propostas

Autor: Silva, Manuel Carvalho da (2007)

Editora: Círculo de Leitores e Temas e Debates.

Num contexto de acentuada globalização económica, propício ao reforço dos processos de precariedade e a novos focos de desigualdade no trabalho, a obra Trabalho e sindicalismo em tempo de globalização (que corresponde, no essencial, à tese de doutoramento em Sociologia do autor) tem como argumento central a defesa da centralidade do trabalho e do papel dos sindicatos enquanto "actores colectivos fundamentais para a transformação e o desenvolvimento da sociedade" (p. 36).

Depois de expor as preocupações e motivações do autor, a primeira parte da obra (capítulos 1 e 2) caracteriza em detalhe os actores da globalização e os factores e implicações que decorrem da sua acção para o mundo do trabalho. Na segunda parte da obra, de recorte empírico (sobretudo os capítulos 3, 4 e 5), o autor lança o olhar sobre três complexos de empresas (Grundig/Blaupunkt, Nova Penteação e Portugal Telecom) para nelas estudar uma multiplicidade estratégias de acção, formas de resistência e envolvimento sindical decorrentes de problemas diversos do mundo laboral (segmentação dos mercados de trabalho, instabilidade no emprego, vínculos laborais precários, etc., etc.). É bem notório aqui o exaustivo trabalho de campo do autor para o qual muito contribuiu a sua experiência enquanto trabalhador e sindicalista.

Dois pontos devem ainda assinalar-se na segunda parte: por um lado, a (esperada) referência à CGTP (capítulo 6) e ao seu papel histórico de intervenção social e político na sociedade portuguesa. O autor refere, inclusive, a possibilidade da construção de alianças sociais do sindicalismo com a sociedade civil, mas as referências a estas são escassas e o papel do sindicalismo acaba, sem surpresas, por prevalecer; por outro lado, o olhar sobre o processo de construção da "Europa Social" e sobre o papel da Confederação Europeia de Sindicatos. Neste caso, assinale-se a identificação de pontos críticos mas igualmente de virtualidades (o que nem sempre sucede no seio da CGTP) associadas ao sindicalismo da CES. Ainda assim, no plano transnacional, são apenas circunstanciais as referências à Confederação Sindical Internacional e ao posicionamento que a CGTP poderá assumir perante o maior actor sindical mundial.

Por fim, não pode esquecer-se o carácter propositivo da obra, fazendo jus ao subtítulo reflexões e propostas. Não só nas conclusões como em vários momentos do livro esse registo de proposição é bem evidente. Ele parece traduzir, afinal, a convicção do autor de que aos sindicatos do nosso tempo devem ser capazes tanto de reivindicar e conflituar, mas igualmente de negociar (p. 462). De certo modo, o último capítulo do livro - centrado na importância da contratação colectiva enquanto elemento dinamizador da democracia e cidadania laborais - aponta também nesse sentido.

Em resumo, uma obra de grande actualidade e interesse não só para todos os que estão envolvidos no mundo do trabalho, como para os estudiosos (investigadores e académicos) do sindicalismo, em grande medida pela variedade de temas, problemas e propostas que nela se apresentam.

Hermes Augusto Costa

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