The Internet belongs to every one (título do livro electrónico de Eric Lee, 2000, http://www.labourstart.org/icann/ericleebook.shtml)
É recorrente dizer-se que os sindicatos precisam de se adaptar aos novos tempos. Como diria Peter Waterman (2005), a transição do período do capitalismo "nacional/industrial/colonial" (NIC) para o período do "capitalismo globalizado/conectado em rede/informatizado" (GCI) faz com que também o sindicalismo não possa ficar indiferente e, como tal, tenha de saber capitalizar as novas ferramentas propiciadas pelo próprio adversário que historicamente tem combatido. É certo que a pretensão de colocar a comunicação ao serviço dos trabalhadores não constitui um anseio novo, pois já no Manifesto do Partido Comunista (1848) Marx e Engels apelavam a uma maximização dos meios de comunicação resultantes da industrialização do século XIX. Trata-se agora, porém, de maximizar ferramentas da era CGI - como o email, as bases de dados electrónicas, o telefone móvel, os SMSs, os MMS, a videoconferência, as fotografias digitais, os grupos de discussão on line, os chats on line, as publicações on line, as estações de rádio on line, os blogues, etc. - pois tais ferramentas anunciam novas e mais instantâneas formas de comunicação.
O "sindicalismo electrónico" está, no entanto, confrontado com opiniões de sentido dual, pois os sinais reveladores das suas virtualidades parecem encontrar um ambiente mais favorável no seio das comunidades académicas (ou de académicos activistas) ou entre web designers ou consultores de Internet do que entre o "comum" dos sindicalistas.
Autor de vários livros e dezenas de artigos sobre os contributos da Internet para o sindicalismo ao longo dos últimos 15 anos, Eric Lee é seguramente, à escala mundial, um dos representantes da corrente de optimistas, pois crê que a Internet conduz a uma rede de trabalho global (global labournet) e em direcção de uma "Nova Internacional Operária", por sinal a "primeira organização de trabalhadores verdadeiramente global" (Lee, 2004: 71). Juntamente com mais de 500 activistas voluntários, ele é o principal dinamizador (editor) do Labourstart (http://www.labourstart.org/), serviço de notícias on line colocado ao dispor do movimento sindical internacional, difundindo informação em mais de vinte línguas e apoiando sindicatos em múltiplas campanhas locais, nacionais e internacionais. Mas como pode então, segundo os mais optimistas, o sindicalismo beneficiar dos recursos propiciados pela Internet?
É um facto que a Internet ajuda a superar problemas com que o sindicalismo (e não só o sindicalismo) se confrontou durante décadas, com por exemplo o acesso fácil e não dispendioso a novos trabalhos portadores de uma visão democrática do mundo, bem como à reimpressão de trabalhos que de outra forma ficariam perdidos em arquivo. Por outro lado, a digitalização de milhares de livros, revistas e panfletos publicados pelos movimentos operários e sociais ao longo do último século constitui um dos seus mais valiosos contributos. Mas a funcionalidade dos sites destinados a enaltecer o potencial emancipatório do sindicalismo reside também na capacidade de transposição permanente, actualizada e rápida, para o ciberespaço das denúncias das violações dos direitos operários e sindicais, reforçando on line os protestos, as lutas e as campanhas sindicais, bem como todo o tipo de informações de interesse para o movimento sindical internacional. Lee (1997: cap. 2) enuncia inclusive os méritos associados a cada uma das ferramentas electrónicas. Recupero apenas os méritos de duas delas, o email e as bases de dados on line. Quanto ao email, quando comparado com o fax, é mais fiável, mais rápido, mais barato, mais móvel (pode-se aceder a partir de diferentes computadores), convida ao diálogo, etc. Por sua vez, quanto às bases de dados on line, constata-se que estas são úteis para os sindicalistas porque: são facilmente actualizáveis; são frequentemente gratuitas (ao contrário dos CD-ROMs ou dos livros); admitem (ao contrário das bases de dados impressas) a pesquisa por palavras-chave; podem ser integradas noutras ferramentas com o email; permitem a difusão de informação de forma ampla, etc.
Outro investigador e activista de movimentos sociais, Peter Waterman (2005), defende igualmente a importância da "conectividade reticular" para o sindicalismo transnacional. Em seu entender, o sindicalismo tem ainda muito a aprender com outros movimentos sociais ou mesmo ONGs que há mais tempo despertaram para o mundo da net. Em Seattle (Dezembro de 1999), por ocasião daquela que terá sido a primeira grande referência mundial das manifestações anti-globalização (posteriormente rebatizadas, sobretudo depois do 11 de Setembro, como manifestações alter-globalização), foi posta precisamente ao rubro essa necessidade de conferir uma forma comunicacional/cultural e electrónica ao mundo do trabalho. Essa iniciativa e mobilização foi conduzida em grande parte através da Internet, tendo partido de uma rede de redes de ONGs, ao passo que, segundo Waterman, os participantes e os observadores internacionais ligados às estruturas sindicais se colocaram em segundo plano.
Uma das experiências de âmbito internacional em que, ainda assim, o sindicalismo electrónico tem sido valorizado é a Southern Initiative on Globalisation and Trade Union Rights (SIGTUR, http://www.sigtur.com/). Também aqui encontramos o envolvimento de activistas e de académicos (Webster e Lambert, 2004). Politicamente falando, trata-se de uma rede de sindicatos democráticos do Sul (que envolve países como: Austrália, África do Sul, Índia, Paquistão, Sri Lanka, Indonésia, Malásia, Brasil, etc.) e que se destina a lutar pela emancipação social. Baseada nas novas tecnologias do ciberespaço e combinando a organização sindical tradicional com comunicação em rede própria da "era da informação", a SIGTUR apela a um "novo internacionalismo operário" construído em rede e de vocação mobilizadora. As organizações sindicais que compõem a SIGTUR estão ligadas e integradas pelo dinamismo do trabalho em rede, estando todas ligadas à Internet e estabelecendo nódulos de intersecção entre si. A rede SIGTUR deu origem a campanhas no ciberespaço, tendo uma das mais antigas indústrias (a indústria da mineração) sido alvo de uma campanha ciberespacial em favor da salvaguarda dos interesses sindicais e ambientais. A adopção de práticas anti-sindicais e anti-ambientais por uma das maiores empresas de mineração do mundo, a Rio Tinto, foi o motivo principal dessa campanha, na qual a SIGTUR se comprometeu com o programa da Federação Internacional da Química, Energia e Mineração no sentido de combater tais práticas. Outras campanhas da SIGTUR têm passado pela construção de um "Primeiro de Maio" comum em torno do emprego e ainda pela construção de um sindicalismo global.
Este optimismo (mesmo que nalguns casos seja mais oportuno rotulá-lo de prudente) parece esbarrar nalgumas contrariedades. Estas são ditadas quer pela existência de obstáculos ao e-sindicalismo, quer pela descrença por vezes manifestada pelos próprios sindicalistas quanto aos resultados práticos associados à mobilização através da web ou do email. Os obstáculos ao e-sindicalismo são de vária ordem e relacionam-se, entre outros aspectos, com:
i) a presença de sinais de iliteracia associados à utilização ou à familiarização com a utilização da Internet. A este respeito, como afirmava Eduardo Chagas (secretário-geral da Federação Europeia dos Trabalhadores de Transportes, ETF) no seminário "O sindicalismo português e a nova questão social: crise, consolidação ou renovação?" (Coimbra, Faculdade de Economia, 26 de Janeiro de 2008), "infelizmente, sobretudo na sociedade portuguesa, ainda há uma maioria de cidadãos, trabalhadores, que não sabe, que é iletrado em termos da Internet";
ii) o deficit de democracia em muitos locais de trabalho, que limita (controla e pune) o uso da Internet ou mesmo do email. Este obstáculo põe, pois, ao rubro a tensão entre os navegadores do operariado e os armadores das administrações. A metáfora poderá parecer algo forçada, mas são conhecidos em Portugal casos (narrados, é um facto, sobretudo pelos próprios trabalhadores) de e-sindicalistas que foram proibidos de entrar na empresa e a quem foi confiscado o computador pela administração supostamente por ter utilizado o "fórum virtual" para denegrir a imagem da empresa. São igualmente divulgados casos de sindicalistas que não têm sequer acesso a computador (e consequentemente acesso a email) ou ainda casos em que vários trabalhadores têm de partilhar um computador;
iii) questões de ordem linguística, i.e., questões relacionadas com a inexistência da língua-mãe como fonte principal de comunicação. Este obstáculo é demonstrativo de que a criação de uma rede laboral verdadeiramente global exigiria, por exemplo, software de tradução automática para a língua dos interessados num determinado assunto susceptível de partilha transnacional. A dificuldade em obter tal tradução faz com que ou os sindicalistas tenham de dominar outra língua para além da língua materna ou então com que os sindicatos tenham de despender consideráveis quantias em dinheiro em serviços de tradução;
iv) a utilização do próprio email. Este obstáculo sugere, por exemplo: que se recebem, não raras vezes, mensagens electrónicas em massa que não foram de todo solicitadas (SPAM); que através do email podem ser expandidos vírus no computador; que o excesso de informação nas caixas de correio leva a um ignorar crescente dos emails; ou, ainda, que pode haver informação enviada por email cujos conteúdos se afiguram pouco relevantes ou secundários (e aqui a existência de gestores/moderadores de páginas web, capazes de filtrar informação útil e prioritária, seria crucial), etc.
Por outro lado, o segundo conjunto de contrariedades associadas ao e-sindicalismo prende-se com uma avaliação dos resultados dele decorrentes. Dir-se-ia, que a obtenção de resultados favoráveis para os trabalhadores e sindicatos dependeria de uma superação dos obstáculos ao e-sindicalismo acima mencionados. Porém, essa constatação não parece ser suficiente, pois a realidade mostra que as lutas dos trabalhadores se fazem no dia-a-dia, no contacto directo com os problemas, facto que por si só abala as convicções dos mais optimistas (e porventura menos realistas) que depositam expectativas mais elevadas no sindicalismo electrónico. E uma vez mais vale a pena retomar a posição de Eduardo Chagas no seminário acima mencionado. Apesar de se tratar de um internacionalista e de um utilizador quotidiano dos meios electrónicos, quando questionado sobre se o e-sindicalismo poderia aspirar à condição de V Internacional Operária, respondeu nos seguintes termos:
"Digam o que quiserem, nada pode dispensar o contacto directo com as bases, o contacto directo na empresa, auscultar, sentir, viver ao lado dos trabalhadores aquilo que eles sentem. Só assim é que os podemos defender. Se tentamos resolver as coisas por telefone ou pela Internet não vamos lá chegar. Um exemplo triste, porque é significativo, foi a petição que a Confederação Europeia de Sindicatos (CES) lançou em Outubro de 2006 com o objectivo de até ao Congresso, em Maio de 2007, juntar um milhão de assinaturas pela protecção dos serviços de interesse geral. A CES foi protelando o fecho da campanha penosamente até chegar à conclusão, em Outubro do ano passado, seis meses depois daquilo que previa, com um pouco menos de 500.000 assinaturas, que não era capaz de o fazer. Em três meses, uma associação europeia de deficientes juntou mais de um 1.200.000 assinaturas por uma campanha em que eles se empenharam também. O que é que aconteceu na campanha da CES? Foi o e-sindicalismo a funcionar a toda a força nos sindicatos, a fazerem seguir para todos os contactos apelos à assinatura, mas das 480.000 ou 500.000 assinaturas praticamente um quarto veio da Roménia. E porquê? Porque são mais activos e têm mais acesso à Internet? Não, porque fizeram-nas com papel, fizeram recolha de assinaturas nos locais de trabalho, fizeram recolha de assinaturas nas manifestações e foi aí que eles as arranjaram"
O pragmatismo deste testemunho mostra que, apesar da Internet constituir um instrumento incontornável das estratégias de recrutamento e mobilização sindical, o sindicalista virtual está ainda muito aquém do sindicalista real. Mesmo que seja crescente, não só em Portugal mas um pouco por todo o mundo, o número de organizações sindicais que possuem um endereço electrónico e que põem os seus associados a comunicar em/na rede, seria certamente de grande utilidade proceder a um cyber-censo mundial que permitisse medir a dimensão do acesso à Internet por parte dos sindicalistas, desde logo porque existem diferenças entre países, sectores e sindicatos, assim como existem diferentes intensidades de valorização da rede, distintos timings de actualização das páginas electrónicas, etc. A ideia seria tão-só a de criar condições para verificar, como assinalava Eric Lee na viragem do século XX para o século XXI, se "o número de sindicalistas on line é pelo menos tão elevado quanto a percentagem de sindicalistas numa determinada sociedade" (Lee, 2000: 14). E, mais do que isso, seria útil verificar qual o peso da mobilização electrónica na produção de efeitos reais favoráveis para os trabalhadores.
Dizer que a "Internet pertence a todos" significa o reconhecimento que ela pode, se os trabalhadores quiserem, ser usada como instrumento de luta colectiva. O desafio está em convencer os trabalhadores e sindicatos que ela pode também ser meio para a obtenção de resultados práticos, mesmo que tardios e há muito reclamados (como foi o caso do contributo que os mais de 5.000 docentes do ensino superior deram quando subscreveram, ainda em 2007, a petição on line "Por uma Lei que garanta universalidade e igualdade no acesso ao subsídio de desemprego" e na qual o SNESUP desempenhou um papel central). Nesse sentido, o e-sindicalismo, ao ajudar a superar fronteiras espaciais (locais e nacionais), institucionais e de classe, pode constituir-se num importante mecanismo de maximização de oportunidades emergentes. Mas para isso é igualmente importante que a comunicação que lhe é inerente não seja apenas apropriada como princípio técnico, mas igualmente de uma forma mais democrática, i.e., também enquanto princípio ético.
Referências bibliográficas
Lee, Eric (1997), The labour movement and the Internet: the new internationalism. Londres: Pluto Press.
Lee, Eric (1999), "Trade unions, computer communications and the new world order", in R. Munck e P. Waterman (orgs.), Labour worldwide in the era of globalization: alternative union models in the new world order. Londres: MacMillan Press, 228-244.
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Lee, Eric (2004), "Towards global networked unions", in R. Munck (org.), Labour and globalisation: results and prospects. Liverpool: Liverpool University Press, 71-82.
Lee, Eric (2006), "Online campaigns and the wisdom of crowds", International Union Rights, 13 (3), 17.
Waterman, Peter (2004), "Ten theses on international labour studies and labour internationalism: the future of the past", Labour Movements, Research Committe (RC) 44 (Dezembro) da Associação Internacional de Sociologia. Madrid: Universidad Complutense, 9-10.
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Webster, Edward; Lambert, Rob (2004), "Emancipação social e novo internacionalismo operário: uma perspectiva do Sul", in B. S. Santos (org.), Trabalhar o mundo: os caminhos do novo internacionalismo operário. Porto: Afrontamento, 65-111.