Economicismos

O último número da revista do Snesup (Ensino Superior, 27: 20-22) inclui dois artigos de André Freire originalmente publicados no Público. Aí se sustenta a tese de que a prioridade à educação e formação reclamada pelo Governo seriam negadas pelo que considera serem os baixos níveis de financiamento público destas áreas (em termos comparativos).

  1. Acontece que a avaliação das políticas de educação deve ser aferida por outros indicadores que não os usados por André Freire: o gasto não é um resultado mas um recurso para produzir resultados, pelo que, no limite, é possível gastar mais e ter piores resultados, ou seja, ter piores politicas com mais despesa. Na educação, e no estado em que Portugal está, a avaliação do sucesso ou insucesso das políticas tem que ser feita com indicadores de resultados, não de meios.
  2. Portugal tem taxas de escolarização muito baixas no secundário; tem taxas de repetência no básico e secundário verdadeiramente pornográficas, que só existem noutros países lusófonos (grande herança!); tem, em geral, taxas de abandono mais elevadas do que a maioria dos países da OCDE. A avaliação das políticas deve pois ser feita avaliando a evolução destes indicadores, não a da despesa. Ora, essa tem sido, em geral, positiva.
  3. Portugal tem um ensino superior ainda muito escolarizado, com poucas articulações com a investigação. De entre as mudanças urgentes no ensino superior está pois a promoção de uma maior articulação entre ensino e investigação, sobretudo nos níveis pós-graduados. Será uma mudança lenta que, no decurso da sua efectivação, necessitará de mais recursos para o conjunto ciência e ensino superior. O problema não está pois na redução das verbas para o superior, nomeadamente quando as da ciência sobem, mas em saber: primeiro, se as verbas mais elevadas para a ciência estão a beneficiar um novo ensino superior com mais articulações entre ensino e investigação; segundo, se na reforma do ensino superior existe uma afectação selectiva dos recursos às instituições em função dos seus resultados (devidamente avaliados). Ora, se no primeiro caso é ainda cedo para perceber o que se está a passar, no segundo há já uma experiência negativa de redução cega dos recursos que precisa de correcção urgente.
  4. Este não é, porém, um problema de simples contabilidade (economicista) da despesa.

Inserido por Rui Pena Pires no blog Canhoto
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