Equipa de investigação:
Investigador Responsável: José Manuel Mendes (CES)
Coordenador na UTL: José Maria Carvalho Ferreira (SOCIUS)
Coordenador no ISCTE: António Caetano (CIS)
Consultores do Projecto: João Freire; Margarida Chagas Lopes; Maria Filomena Pimenta
Equipa do CES:
Ana Maria Seixas, Claudino Ferreira, Elísio Estanque, Alfredo Campos, Aline Seabra Santos
Equipa do SOCIUS:
Marta Varanda, Rita Raposo, Sofia Bento, Bruno Gonçalves, Joana Zózimo
Equipa do CIS:
Ana Passos, Nelson Ramalho, Sílvia Silva, Cláudia Andrade
Financiamento:
POCI 2010 - Programa Operacional Ciência e Inovação
O Projecto de Investigação resulta da parceria entre o Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (CES), o Centro de Investigação Social do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (CIS) e do SOCIUS da Universidade Técnica de Lisboa, e teve início em Julho de 2007.
Este Projecto pretende realizar quatro grandes objectivos. Em primeiro lugar, diagnosticar e sistematizar a situação do insucesso e do abandono académico em diferentes instituições e áreas disciplinares do Ensino Superior em Portugal, numa perspectiva comparada. De seguida, analisar os factores que directa e indirectamente estão associados ao insucesso e abandono académico em certas áreas disciplinares e instituições. Pretende ainda analisar e propor novas conceptualizações e mecanismos de monitorização para o insucesso escolar. Por fim, procura identificar as prioridades de intervenção de natureza preventiva e sugerir linhas de acção para promover o sucesso académico.
Para realizar estes objectivos, foram escolhidas três instituições públicas de Ensino Superior com diferentes trajectórias históricas, públicos-alvo, importâncias regionais e culturas institucionais. As instituições são a Universidade de Coimbra (UC), a Universidade Técnica de Lisboa (UTL) e o Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE). Foram também seleccionadas cinco áreas disciplinares a estudar: Arquitectura na UC, UTL e ISCTE; Gestão na UC, UTL e ISCTE; Ciências da Saúde, com Medicina na UC e Medicina Veterinária na UTL; Engenharias diversas nas três instituições; Comunicação Social, com Ciências da Comunicação na UTL e Jornalismo na UC.
O Projecto baseia-se em metodologias qualitativas e quantitativas. Até ao momento, foi feita uma recolha exaustiva de dados estatísticos sobre o insucesso e abandono escolar nestas instituições e áreas disciplinares, dados disponibilizados pela UC, UTL, ISCTE e Gabinete de Planeamento, Estratégia, Avaliação e Relações Internacionais (GPEARI). Foi feita uma revisão bibliográfica acerca do tema, de modo a compreender quais as principais linhas de investigação, os conceitos e os factores passíveis de influenciar o sucesso académico, estudados e sugeridos por outros autores. Foram feitas 51 entrevistas exploratórias a dirigentes institucionais, dirigentes estudantis e estudantes com percursos de sucesso e insucesso no Ensino Superior, nos cursos e instituições acima mencionados. A partir das leituras e das entrevistas exploratórias, foi construído um inquérito por questionário para estudar o sucesso e insucesso académicos, que já aplicado à quase totalidade da amostra.
No que respeita aos dados estatísticos recolhidos, salienta-se um conjunto de críticas à conceptualização e cálculo do insucesso escolar por parte do GPEARI, que enviesam os resultados obtidos, nomeadamente: o facto de o método de cálculo ser altamente influenciável por (frequentes) aumentos e decréscimos nos ingressos; os resultados são adulteráveis por fenómenos de mobilidade como as mudanças e transferências de curso, sendo que estas elevam o insucesso quando se trata de saídas e reduzem-no no caso de entradas; a existência de trabalhadores-estudantes não é considerada pela fórmula; tal como as transferências e mudanças para o exterior, também o abandono escolar é cumulativamente considerado como insucesso para efeitos do uso desta fórmula.
Deste modo, para que efectivamente se conheça o insucesso, torna-se fundamental criar uma metodologia que não somente o quantifique, além de considerar fenómenos como os acima elencados, mas igualmente que considere os próprios alunos. Portanto, que avalie os percursos das coortes de alunos que entram em cada ano, monitorizando os desempenhos de cada um ano a ano.
Foram por nós requisitados às instituições a ser estudadas, um conjunto de dados que possibilitassem, nomeadamente a reconstituição de coortes, bem como a análise de outros factores: número total de matriculados pela primeira vez por curso, por ano do curso e por sexo desde o ano lectivo de 1997-1998, número total de matriculados por curso, por ano do curso e por sexo, origem geográfica dos alunos, condições socioeconómicas dos pais dos alunos (profissão e nível de instrução), transferências por ano em cada um dos cursos, mudanças de curso, reingressos, alunos por curso e por ano de curso com mais de uma matrícula e número de diplomados por curso e por sexo.
Têm sido encontrados, no entanto, diversos problemas à recolha destes dados, seja por inexistência dos mesmos nos serviços administrativos, seja por entraves vários à sua disponibilização. Embora tal se verifique de formas diversas para as diversas instituições, inequivocamente dificulta consideravelmente o estudo que se pretende desenvolver, nomeadamente na sua vertente comparativa.
Os dados respeitantes ao abandono escolar, não existindo disponíveis, foram calculados aproximadamente, por meio de fórmula matemática concebida para esse efeito:
- Equação do Abandono: Ab(x) = I(x) - I(x+1) + I1(x+1) - Dp(x)
Ab(x) = Abandono no ano X
I(x) = Inscritos totais no ano X
I(x+1) = Inscritos totais no ano seguinte ao ano X
Dp(x) = Diplomados no ano X
A aplicação da equação do abandono para as Universidades públicas nos anos lectivos de 2001 a 2006, ressalvando todos os problemas metodológicos inerentes, resulta num abandono médio que oscila entre os 7,5% e os 12 %, como se pode constatar no quadro que se apresenta abaixo.
Abandono Escolar, em Universidades Públicas, de 2000-2001 a 2005-2006 |
Universidade | 2000 - 2001 | 2001 - 2002 | 2002 - 2003 | 2003 - 2004 | 2004 - 2005 | 2005 - 2006 | |
Média | 7,51% | 10,24% | 8,49% | 10,29% | 9,54% | 11,85% | |
A equação consiste, essencialmente, na determinação do número de alunos que saem dos registos, por meio da comparação entre os inscritos em dois anos consecutivos, tendo em consideração os novos alunos que entram e os diplomados que saem. No entanto, a equação para o abandono, limita-se a comparar números entre dois anos, dando-nos um valor de abandono absoluto, os alunos que saem da licenciatura, sem que tal signifique um abandono do ensino superior. Assim, é possível que um aluno saia da sua licenciatura sem que abandone o sistema de ensino, por exemplo mudando para outra licenciatura na mesma Universidade, ou transferindo-se para a mesma licenciatura de outra instituição, sendo estes casos contabilizados como abandono escolar.
A revisão bibliográfica feita até ao momento permitiu construir um modelo analítico do sucesso escolar, no qual as variáveis sociodemográficas, o percurso pré-universitário, as motivações que estiveram na base da escolha do curso e a atractividade da Universidade/Faculdade, influenciando-se entre si, condicionam a forma como os estudantes se comprometem com o curso e com a Universidade. Por sua vez, o compromisso que os estudantes estabelecem com o curso e com a Universidade influencia a sua integração académica e social, sendo que para esta integração contribuem também a vivência pedagógica, universitária e extra-universitária, bem como o ajustamento pessoal. Finalmente, a integração académica e social do estudante, em conjunto com as suas necessidades e oportunidades de emprego, condicionam o desempenho académico do aluno: o seu sucesso, insucesso e abandono ou intenção de abandono.
As entrevistas exploratórias realizadas a informadores privilegiados permitiram apurar concepções distintas de sucesso académico, sugestões de factores passíveis de influenciar o sucesso e permitiram recolher um conjunto de propostas para combater o insucesso e o abandono. Elas mostram que existem diferenças nas concepções entre professores e alunos, bem como diferenças entre instituições. O sucesso académico foi frequentemente definido como a capacidade de aliar à vida escolar actividades e interesses extracurriculares, como forma de realização e valorização pessoal dos alunos, com largas implicações na sua vida futura e no desempenho de uma profissão (concepção sobretudo defendida pelos entrevistados da UTL). Outra concepção de sucesso identificada foi a aquisição, ao longo do curso, de competências que permitam ao estudante do Ensino Superior exercer a profissão para a qual o se preparou. O facto de se terminar o curso com uma média elevada foi outra definição de sucesso apresentada por grande parte dos entrevistados. Por fim, a definição de sucesso da OCDE e GPEARI, parece ainda fazer algum eco nos entrevistados, na medida em que mencionam a conclusão do curso no prazo originalmente previsto como indicador de sucesso académico. Porém, há que acrescentar que esta definição foi criticada por parte dos entrevistados, com o argumento de que demorar mais tempo a fazer o curso pode resultar em sucesso académico (argumento que se ouviu, sobretudo, nos cursos de Medicina, Arquitectura e Engenharia Informática).
Quanto aos factores que parecem influenciar o sucesso académico, os mais referidos pelos entrevistados foram o contexto sociocultural de origem dos alunos; os factores financeiros (sobretudo se impelirem um aluno a estudar e trabalhar simultaneamente); as expectativas quanto ao curso antes do ingresso; a integração académica; factores cognitivos e emocionais (por exemplo, a inteligência, a estabilidade emocional, a ambição); a relação entre alunos e professores; os métodos de ensino e avaliação; e o percurso escolar dos alunos no Ensino Secundário (com especial enfoque para os hábitos de estudo). É de destacar que os entrevistados identificaram como grupos especialmente vulneráveis ao insucesso os estudantes de PALOP, os trabalhadores-estudantes e os alunos do 1º ano. Por fim, as propostas mais referidas para combater o insucesso e o abandono escolares foram a organização de recepções aos alunos dos primeiros anos, nos primeiros dias de aulas; a criação de sistemas de tutorias (ambas as propostas foram sobretudo referidas pelos entrevistados da UC); a diminuição da componente teórica das aulas (proposta sobretudo referida por estudantes); e a maior aproximação entre professores e estudantes.
As ideias e conceitos recolhidos pelo trabalho de revisão bibliográfica e pelas entrevistas exploratórias permitiram a construção de um inquérito por questionário, o principal instrumento de recolha de dados deste Projecto. O inquérito consiste em duas partes, sendo que a sua ordem varia de acordo com a versão do inquérito (versão 1 ou 2). Uma das partes é constituída por um total de 66 perguntas fechadas ou semi-fechadas, que se distribuem pelos seguintes temas: caracterização pessoal do inquirido, relação com o trabalho, caracterização profissional dos pais, caracterização do agregado familiar, percurso escolar pré-universitário e universitário, condições de estudo e satisfação quanto a equipamentos e serviços universitários. A outra parte consiste em 146 afirmações que os inquiridos devem comentar segundo uma escala de Likert. Estas afirmações prendem-se com o processo de escolha do curso, a relação com o curso e com a Faculdade, o envolvimento com o trabalho académico, a experiência académica, a opinião sobre a Faculdade, professores e ambiente universitário e o financiamento dos estudos e oportunidades de trabalho.
Estando praticamente terminada a aplicação do inquérito, os próximos passos deste Projecto consistirão na análise das informações recolhidas; no aprofundamento da recolha de dados estatísticos junto das instituições; na criação e aplicação de um inquérito telefónico aos estudantes que abandonaram os cursos e na execução de entrevistas a empregadores e licenciados.
Procurar-se-á, daqui, propor novas conceptualizações para o insucesso escolar, com o fim de desenvolver novos e mais adequados mecanismos de cálculo e sistemas de monitorização do insucesso e abandono escolares. Daqui, encaminhar-nos-emos para o objectivo último desta investigação, a identificação de prioridades de intervenção e sugestão de linhas de acção para promover o sucesso académico e combater o abandono escolar.