A mobilidade internacional dos cientistas é uma questão que, não sendo nova, tem sido crescentemente debatida, pois tem importantes repercussões no âmbito da política científica. A universalidade da ciência e o fenómeno da globalização tendem a aumentar consideravelmente o volume e as direcções dos fluxos de circulação de investigadores. Mas o que pode beneficiar claramente a qualidade e quantidade da produção científica e as carreiras individuais, pode de igual modo pôr em risco o desenvolvimento de sistemas científicos mais frágeis, desperdiçar o investimento feito por alguns países na formação de recursos humanos, acentuar as assimetrias regionais já existentes. O caso português não foi ainda objecto de estudo detalhado, mas como país na "semi-periferia" do sistema mundial de ciência, apresentará peculiaridades que o tornam particularmente interessante. Será um país eminentemente "de saída" de investigadores, mas também de retorno, como o demonstram algumas estatísticas oficiais, e até de entrada de investigadores estrangeiros. Este breve artigo pretende contribuir para o debate desta questão, baseando-se nos resultados de um inquérito aplicado a investigadores portugueses no estrangeiro[1].
Actividade e localização geográfica
As limitações do processo de amostragem conduzem a que os resultados obtidos neste inquérito, sobretudo respeitantes à caracterização dos investigadores portugueses no estrangeiro, tenham que ser interpretados com cautela. Desconhecendo-se em larga medida o universo (quantos são, onde estão, em que área trabalham), é difícil aferir até que ponto a amostra de respondentes lhe é fiel.
Em termos gerais, verifica-se que 52% dos respondentes ao inquérito são mulheres, o que é conforme à crescente feminização do ensino superior e da ciência portuguesa. 62% dos inquiridos são estudantes de doutoramento, os restantes 38% são investigadores doutorados. Entre estes últimos, a maioria tem como actividade principal a investigação (63%), integra-se numa universidade ou instituição de ensino superior (78%), com um contrato permanente (39%) ou temporário (38%).
Figura 1 - Investigadores portugueses no estrangeiro por situação de carreira

N = 521
A maioria dos investigadores inquiridos encontra-se nos países centrais do sistema científico mundial: Estados Unidos e Europa comunitária (Reino Unido, França, Holanda, Alemanha, Espanha). Entre os investigadores doutorados verifica-se uma maior dispersão por outros continentes (incluindo os Estados Unidos), enquanto que os estudantes de doutoramento se localizam preferencialmente na Europa. A escolha destes países de destino dever-se-á a vários factores: excelência científica e da formação pós-graduada, língua, proximidade a Portugal, condições de emprego científico (volume de vagas, abertura dos processos de recrutamento). Dentro destes países, os investigadores portugueses concentram-se sobretudo nas instituições mais prestigiadas (centros de excelência das respectivas áreas científicas).
Figura 2 - Investigadores portugueses no estrangeiro por país de acolhimento

N = 521
Origem
Praticamente todos os investigadores inquiridos fizeram a sua formação inicial (licenciatura) no sistema científico português. As principais instituições portuguesas "de partida" são as universidades públicas localizadas em Lisboa, Porto e Coimbra: as mais antigas, as mais prestigiadas e as mais vocacionadas para a investigação. 36% dos inquiridos saíram do país logo após a licenciatura e 45% nos 2 a 5 anos subsequentes.
Entre os estudantes de doutoramento, 63% tiveram alguma experiência de investigação em Portugal (mestrado, participação em projectos de investigação) antes de saírem do país. 83% declararam ter tido pelo menos uma experiência internacional prévia (participação em conferências internacionais, visita ou estágio numa instituição estrangeira, participação num projecto internacional ou nos programas Erasmus ou Sócrates, trabalho de campo ou de recolha de dados feito no estrangeiro), que terá contribuído para a sua apetência para a mobilidade.
Entre os investigadores doutorados, 76% já fez o doutoramento fora de Portugal (e mais de metade destes permaneceu no país de doutoramento), o que indicia que os estudos pós-graduados no estrangeiro são geralmente o primeiro passo para a migração, mas também que há fluxos de saída mesmo depois do doutoramento.
O período previsto de permanência no estrangeiro é variável: se entre os estudantes de doutoramento é mais comum declarar os 4 anos de duração dos cursos (ou das bolsas) ou períodos inferiores (doutoramentos mistos), 85% dos investigadores doutorados não têm uma data de regresso definida.
Ligação ao sistema científico português
Praticamente todos os investigadores inquiridos mantém alguma forma de contacto com o país de origem, o que pode ser entendido tanto como um meio para assegurar o regresso no futuro como uma forma de contribuir para o desenvolvimento científico de Portugal por parte dos que tencionam manter-se fora do país.
23% dos estudantes de doutoramento estão num regime de doutoramento misto (uma universidade portuguesa e uma estrangeira). 19% dos investigadores desenvolvem investigação em temas especificamente relacionados com Portugal (a maioria nas ciências sociais e naturais).
Quanto aos laços científicos, são mais frequentes os contactos informais com pares (85%) e o acompanhamento da ciência que é feita em Portugal (leitura de artigos, participação em conferências). Menos frequentes mas não inexistentes são a participação directa em actividades científicas (co-autoria de publicações, colaboração em projectos de investigação), formativas (dar aulas, co-orientar doutoramentos, fazer parte de júris, intercambiar estudantes) e consultivas (conselhos científicos ou editoriais, painéis de avaliação). O meio privilegiado para estes contactos é o correio electrónico.
Figura 3 - Contactos dos investigadores portugueses no estrangeiro com o sistema científico português (%)

N = 521
Quanto à participação associativa, apesar da vertente disciplinar ser dominante (sobretudo para os investigadores doutorados), um número razoável de inquiridos integra-se em associações ou grupos de base nacional: 31% em associações de investigadores portugueses no estrangeiro (internacionais ou ao nível da instituição ou país de acolhimento), 28% em associações portuguesas da sua disciplina científica, 21% em associações de investigadores em Portugal. As associações poderão então funcionar como importantes canais para veicular informação e tecer redes entre os cientistas portugueses expatriados e o sistema científico português.
É ainda pertinente que mais de metade dos inquiridos afirme contactar diária ou semanalmente com outros portugueses (não familiares) no país de acolhimento, o que pode indicar a existência de migrações em cadeia (investigadores dirigem-se para instituições onde já estão outros portugueses) e de processos de apoio informal no processo migratório.
Quando instados a declarar o seu sentimento de pertença a diferentes comunidades, mais uma vez a identificação disciplinar revelou-se mais forte, seguida da identificação com a comunidade científica mundial (orientação cosmopolita), mas cerca de um terço referiu a cidadania portuguesa e apenas 16% a comunidade científica portuguesa.
Motivações para a saída do país
Segundo os dados apurados neste inquérito, o que impulsiona os cientistas a saírem de Portugal são sobretudo razões científicas: obter formação pós-graduada de qualidade, aprender novas teorias e técnicas, estabelecer redes, trabalhar em áreas pouco desenvolvidas ou usar meios não disponíveis em Portugal. Porém, são também relevantes as motivações de carreira: valorizar o currículo, aumentar as possibilidades de obter emprego no estrangeiro ou em Portugal, ter melhores condições remuneratórias ou laborais. Para os investigadores mais jovens, a dimensão experiencial de viver noutro país e contactar com outras culturas também incita à saída.
Quanto à escolha da instituição de acolhimento, são mais uma vez os factores científicos a ter maior relevo: o prestígio e a qualidade, os recursos disponíveis, a composição da equipa. Contactos informais prévios, sob a forma da recomendação de um professor, já ter estudado ou trabalhado na instituição, ter conhecido algum membro do pessoal ou mesmo ter recebido um convite também são considerados importantes. Por fim, as características do país onde se situa (língua, cultura, qualidade de vida) funcionam igualmente como factor de atracção (sobretudo para os estudantes de doutoramento).
O processo de mobilidade internacional dos cientistas parece deparar com poucos obstáculos. A única dificuldade mencionada com frequência é a distância da família e amigos. Cerca de 40% regista dificuldades com a obtenção de alojamento, 28% com a adaptação ao país de acolhimento e 26% com os procedimentos administrativos ligados à emigração. São as questões científicas (adaptação às práticas de trabalho, relação com a equipa) e a discriminação pela nacionalidade que suscitam menos problemas. Porém, 33% dos investigadores doutorados assinalaram ter sentido dificuldades para encontrar emprego científico. Outras dificuldades referidas foram a gestão da vida familiar e as barreiras ao regresso a Portugal.
Avaliação das condições no país de origem e de acolhimento
Tendo sido pedido aos inquiridos que comparassem as condições encontradas em Portugal e no país de acolhimento quanto a um conjunto de factores, verifica-se que as respostas são francamente favoráveis ao estrangeiro no que respeita aos recursos disponíveis para investigação e às oportunidades de emprego científico, assim como à facilidade de progressão na carreira, às possibilidades de publicação, à autonomia conferida aos investigadores, à transparência no recrutamento, ao prestígio da profissão. O único item no qual Portugal se destaca é na facilidade de conciliação entre a vida pessoal e profissional.
Há no entanto que referir que estas são apreciações subjectivas, por parte de investigadores que em alguns casos terão pouco conhecimento directo do sistema científico português, mas são estas percepções que condicionarão a decisão de regresso.
Inquiridos sobre as mudanças sentidas na prática científica em resultado da experiência de trabalho no estrangeiro, os respondentes associaram-nas a 4 factores principais: uma maior disponibilidade de recursos (meios materiais e humanos, oportunidades de publicação), o desenvolvimento de competências e capacidades (conhecimentos teórico-empíricos, reflexão científica, redacção de publicações e pedidos de financiamento), a exposição a uma "cultura" científica distinta (uma ética de trabalho mais exigente, hábitos de trabalho em equipa, relações menos hierarquizadas) e diferentes oportunidades de desenvolvimento da carreira. No entanto, alguns dos inquiridos afirmaram ter tido pouca ou nenhuma experiência de investigação em Portugal, condicionando a sua capacidade de comparação.
Intenção de regresso
Finalmente, tendo sido perguntado se tencionam regressar a Portugal a médio prazo (no espaço de 5 anos), 45% dos inquiridos responderam negativamente e 43% positivamente (as respostas afirmativas foram mais frequentes entre os estudantes de doutoramento). São três as principais justificações apresentadas para o regresso: razões familiares, o desejo de contribuir para o desenvolvimento do sistema científico e do país e a qualidade de vida em Portugal. Já quanto à decisão de permanecer no estrangeiro, são invocadas sobretudo razões profissionais (falta de oportunidades de emprego, progressão na carreira, salários mais baixos) e científicas (dificuldade em realizar investigação de qualidade, desejo de prolongar a experiência de trabalho no estrangeiro), sobretudo pelos estudantes de doutoramento. Os investigadores doutorados referem em maior número as razões familiares.
Figura 4 - Justificações para a decisão de regressar ou não a Portugal no prazo de 5 anos (%)

N = 458
Comentários finais
Os investigadores portugueses no estrangeiro são um recurso importante para o sistema científico português, que pode ser mobilizado tanto promovendo o seu regresso como fomentando o desenvolvimento de laços com instituições e cientistas em Portugal.
Apesar do investimento que tem sido feito na ciência portuguesa desde os anos 90, a percepção dos cientistas expatriados (e possivelmente dos radicados em Portugal, caso também fossem inquiridos) é que os recursos disponíveis para fazer investigação ainda são insuficientes e que as condições do mercado de trabalho científico em Portugal não são atractivas. São principalmente estes dois factores que impulsionam a sua saída e dificultam o seu regresso.
Os resultados obtidos através deste inquérito têm necessariamente de ser complementados com as fases subsequentes deste estudo, em especial com a recolha de informação junto dos cientistas que regressaram ao sistema científico português depois de um período de estudo ou trabalho no estrangeiro.
O relatório preliminar completo relativo a este inquérito pode ser encontrado em: https://www.ics.ul.pt/rd/researchgroups/pppublication.do?publicationId=1616.