Intervenção em Psicologia da Educação no Instituto Superior de Engenharia do Porto

Projecto Caminhos de Bolonha

 

Introdução

 

Este artigo apresenta a síntese da intervenção em Psicologia da Educação no Instituto Superior de Engenharia do Porto, no âmbito do Projecto Caminhos de Bolonha.

O objectivo que norteia as actividades deste Projecto é resultado da importância e envolvimento, desde o início, do Conselho Científico do ISEP na operacionalização do projecto de modernização e inovação do processo ensino aprendizagem no ISEP, induzido pela adesão ao processo de Bolonha.

Dois motivos estiveram, de um modo mais directo, na base da realização deste percurso de actividades. Em primeiro lugar, a ideia de que a formação em contexto de trabalho se vem assumindo, cada vez mais, como um imperativo de actualização e modernização profissionais, quer pela possibilidade de aquisição, renovação e/ou construção de conhecimentos que propicia, quer pelo desenvolvimento de destrezas, atitudes e capacidades mais consonantes com as actuais exigências de transformação que se colocam na generalidade dos contextos de trabalho contemporâneos, em particular nos domínios da educação e da formação. Estamos cientes de que "não é possível transformar os modos de pensar e de agir ao nível dos processos" de formação sem o efectivo envolvimento dos actores que neles participam, em particular os professores e os alunos (Tavares, Brzezinski; Pereira; Cabral; Fernandes; Silva; Bessa & Carvalho, 2004, p. 34). Caso contrário, as tentativas de mudança e de melhoria profissional serão infrutíferos. Em segundo lugar, a existência de um desfasamento entre a "cultura académica institucional e a natureza da missão profissional cometida ao Ensino Superior" (Formosinho, Ferreira & Machado, 2000, p. 347). Na verdade, os trabalhos de investigação produzidos nas Instituições de Ensino Superior têm privilegiado o estudo das políticas educativas e das práticas das escolas e dos professores de outros níveis de ensino, "mantendo ausente uma análise e reflexão crítica" das práticas que aí se desenvolvem e da própria cultura do Ensino Superior, que tende a não favorecer o trabalho interdisciplinar e cooperativo (Idem, ibidem).

 

1. Formação pedagógica de docentes no ISEP

À semelhança do que tem vindo a acontecer noutras instituições, no ISEP, a necessidade de investir na formação dos docentes tem levado à promoção e organização de momentos de apoio psico- pedagógico, mais recentemente, pelo Núcleo de Apoio Científico pedagógico (NACiPe).

O presente Projecto de Intervenção Pedagógica visa:

  • - Agregar as várias iniciativas de âmbito pedagógico
  • - Ajudar e rentabilizar o esforço dos docentes que se disponibilizem para utilização de novas metodologias pedagógicas
  • - Promover transferência do conhecimento adquirido, nas experiências pedagógicas, para a comunidade ISEP

No conjunto das intervenções em Psicologia da Educação, realizadas pelo NACiPe, as áreas de intervenção sempre presentes têm sido: as metodologias de ensino, a planificação do ensino/aprendizagem e a gestão da aula, a avaliação da aprendizagem, o ensino por projecto, a comunicação na sala de aula e da integração das TIC em contexto didáctico. Existiram ainda acções específicas no âmbito da Psicologia, mais especificamente na área da Inteligência Emocional em contexto pedagógico.

São 4 os formatos que assumiu a intervenção em Psicologia da Educação:

1.SEMINÁRIOS destinados a docentes e discentes

  • Apresentação de temas pedagógicos de carácter geral

2. WORKSHOPS

  • Desenvolvimento de temas pedagógicos de carácter específico;
  • Para sensibilização e motivação na aplicação de metodologias e abordagens pedagógicas adequadas

3. APOIO PEDAGÓGICO

  • A docentes na aplicação de modelos e métodos pedagógicos,
  • Formação e apoio individual e
  • Apresentação pública dos resultados

4. Produção e disponibilização de textos de Psicologia da Educação

Os textos produzidos e disponibilizados foram:

  • Formação de adultos
  • Avaliação da Aprendizagem e Planeamento pedagógico
  • Definição e Estruturação de Objectivos e Planificação da Formação
  • Tipologias de cenários lectivos
  • Optimização do conceito de orientação tutorial

 

Paralelamente a estas iniciativas, foi também responsabilidade da Psicóloga do NACiPe a condução da fase inicial de uma investigação em colaboração com a Universidade do Minho e com a Universidade de Maryland. A investigação visa o estudo da aprendizagem em contexto de sala de aula - com particular incidência no estudo do ambiente social como influente no bem-estar psicológico e sucesso no Ensino Superior.

 

1.1. Seminários

Seminários Caminhos de Bolonha

Nos seminários realizados, houve alguns eixos teóricos que se evidenciaram pela sua pertinência e oportunidade: Critérios de êxito no exercício das funções do docente do Ensino Superior, questões a ponderar na Planificação de uma sequência lectiva, métodos e Técnicas pedagógicas -  sua rentabilização, pertinência  e caracterização distintiva, taxionomias de objectivos pedagógicos, avaliação da aprendizagem, fases do processo de aprendizagem.

Colaboração no encontro Quartas -feiras à tarde no Departamento de Engenharia Informática (QTDEI),  com o tema "Panorama sobre o papel do e-learning no Ensino Superior em Portugal". A Psicóloga do NACiPe participou neste encontro com a apresentação da palestra: "Aspectos pedagógicos para o uso do e-learning". Os temas abordados foram: perspectivas teóricas para o uso do e-learning; comparação evolutiva de paradigmas; e-learning - suas potencialidades; vertentes da aprendizagem significativa; o planeamento como conceito pedagógico; aprender com tecnologias; regimes pedagógicos através do e-learning e desafios pedagógicos do e-learning.

 

1.2.. Workshops

Workshops "Critérios de êxito no Ensino Superior"

As  edições destes workshops contaram com a presença de 96 docentes do ISEP. Cada edição contou com 4 sessões, num total de 12 horas de formação.

Nestes workshops foram abordadas as seguintes temáticas: O conceito de aprendizagem e sua relação funcional com os critérios de êxito do desempenho do docente enquanto promotor de aprendizagens significativas; competências racionais e intuitivas e sua relação com as estratégias funcionais para a gestão de percursos diferenciais de aprendizagem; questões a ponderar na planificação de uma sequência lectiva; desilusões dos professores - estratégias operacionais de combate; métodos e técnicas pedagógicas -  sua rentabilização, pertinência  e caracterização distintiva; factores pessoais de aprendizagem - abordagem operacional no contexto específico da andragogia; correntes da psicologia da aprendizagem - abordagem comportamentalista e cognitivista; modelo de Ausübel; o modelo de Bloom e a taxionomia de objectivos pedagógicos; fases do processo de aprendizagem -  sua sequência, pertinência  e caracterização distintiva; sugestões práticas e propostas concretas para a sequenciação das estratégias pedagógicas assegurando Unidade, Continuidade, Flexibilidade, Precisão e clareza, Objectividade e Riqueza.

 

Workshops  "Assertividade e Inteligência Emocional"

As  edições destes workshops contaram com a presença de 30 participantes. Cada edição contou com 3 sessões, num total de 9 horas de formação.

Nestes workshops foram abordadas as seguintes temáticas: O conceito de inteligência emocional e os seus níveis; o processo de sinergia e a gestão de conflitos; critérios em avaliação na gestão de conflitos; avaliação comportamental dos alunos e gestão estratégica de perfis disfuncionais; identificação e gestão de stress; stress e estratégias de coping; galeria de alunos memoráveis - estratégias de gestão assertiva.

 

1.3. Apoio pedagógico

 

Da totalidade dos atendimentos fez parte o apoio à sistematização de actividades de planificação de cenários lectivos. Estes atendimentos foram na sua totalidade espoletados pela frequência prévia de 1 ou 2 dos workshops.

 

1.4. Produção e disponibilização de textos de Psicologia da Educação

O texto "Formação de adultos" faz referência aos temas:

A aprendizagem e os princípios andragógicos

As teorias da aprendizagem

Factores que influenciam a aprendizagem

O processo de aprendizagem

 

O texto" Avaliação da Aprendizagem e Planeamento pedagógico" faz referência aos temas:

Quais são as Técnicas e Instrumentos de Avaliação da aprendizagem?

Fases de Elaboração dos Instrumentos de Avaliação

 

O texto "Definição e Estruturação de Objectivos e Planificação da Formação"faz referência aos temas:

As Funções dos Objectivos

Níveis de Definição dos Objectivos

Classificação dos Objectivos

Como Formular Objectivos Operacionais

 

O texto "Tipologias de cenários lectivos " faz referência aos tópicos:

Aula teórica

Aula de teórico-prática

Aula de prática

Aula de laboratório

Aula de prática-laboratorial

Aula de orientação tutória

Aulas de projecto

Estágio

Trabalho de Campo (TC)

Outros

 

O texto "Optimização do conceito de orientação tutorial" faz referência a:

Práticas adequadas na orientação tutorial

Responsabilidades dos tutores

A orientação tutorial e a avaliação de conhecimentos

Para além da redacção destes textos, há regista-se também o apoio do NAcIPe à análise de conteúdo pedagógico e consequente reformulação dos documentos " Modelo de ficha de disciplina" e "Orientações Para os Planos de Estudo do ISEP".

 

2. Reflexões finais

Uma leitura dos inquéritos da avaliação da formação realizada pelo NACiPe, revela um conjunto de aspectos positivos, nomeadamente a oportunidade e riqueza da troca de experiências, o espaço de reflexão e de questionamento, a sistematização e fundamentação das temáticas, o confronto crítico de perspectivas sobre aspectos ligados à actividade docente e a emergência de novos interesses, motivações e perspectivas, entre outros.

Como aspectos menos positivos destacam-se a duração das acções, considerada, por grande parte dos formandos, insuficiente, no sentido de se poderem desenvolver mais actividades práticas e em grupo. Emergem ainda como sugestões para melhorar a qualidade da formação a articulação e continuidade das acções com vista ao aprofundamento de temáticas, uma maior e maior ênfase em actividades de natureza prática.

De uma forma geral, pode afirmar-se que o desenvolvimento de competências, o desenvolvimento profissional e o aprofundamento de questões de índole pedagógica são os principais motivos que levaram os docentes do ISEP a frequentar as actividades promovidas pelo NACiPe.

Paralelamente, aspectos como a actualização de conhecimentos, a reflexão sobre as práticas profissionais, o desenvolvimento de estratégias para reforçar a integração de saberes ou mesmo a partilha de experiências pedagógicas são também invocados por um número ainda considerável de respondentes.

A análise dos dados acerca das motivações subjacentes à frequência das acções de formação permite concluir que os principais interesses dos respondentes se enquadram, essencialmente, numa lógica que privilegia, sobretudo, o desenvolvimento de competências essenciais para a prática docente, a promoção do desenvolvimento profissional, o aprofundamento de questões práticas no âmbito das actividades pedagógicas, bem como a actualização de conhecimentos.

Por outro lado, questões como o desenvolvimento de projectos interdisciplinares, o reforço e a integração dos saberes e a progressão na carreira acabam por ter uma menor relevância, o que tem merecido atenção ao nível do (re)enquadramento das futuras propostas de formação.

Além disso, a ênfase colocada em questões que favorecem a dimensão pedagógica e as práticas docentes podem indiciar um certo questionamento da sobrevalorização de actividades de gestão e de investigação em detrimento de aspectos ligados ao processo de ensino-aprendizagem, algo que surge consubstanciado pela forma como a auto-reflexividade profissional é privilegiada pela maioria dos respondentes.

As áreas de interesse assinaladas em termos de escolha e participação em futuras acções de formação pedagógica revelam um grande enfoque na vertente da psicologia. É, assim, possível, a partir dos dados obtidos, organizar as preferências dos docentes inquiridos de acordo com três grandes áreas, com especial destaque para as temáticas direccionadas para a acção e prática pedagógicas, nomeadamente:

( i) o desenvolvimento de estratégias motivacionais em contexto de aula,;

(ii) metodologias inovadoras para o desenvolvimento do processo de ensino-aprendizagem (incluindo o ensino por projectos); e, por último,

(iii) a articulação entre o ensino e a investigação.

 

Em jeito de síntese, importa sublinhar algumas conclusões decorrentes destas actividades para a planificação das intervenções futuras da Psicologia da Educação junto dos docentes do ISEP.

Um dos aspectos a destacar prende-se com a manutenção da definição de uma estratégia global de intervenção.

Outro aspecto que merece atenção relaciona-se com a diversidade de estratégias e áreas de formação (bem como modos de funcionamento) no sentido de responder às necessidades e expectativas dos docentes, tendo em conta a fase da carreira em que se encontram, os projectos (nomeadamente pedagógicos) em que estão envolvidos, a área de conhecimento a que pertencem, etc.

A manutenção da existência de formações modulares, flexíveis, tendo em consideração a experiência individual, os interesses e as preferências dos docentes parece constituir um elemento essencial na organização de oportunidades formativas relevantes.

A este propósito, à semelhança do que já existe noutros países, seria interessante apostar na formação pedagógica dos docentes do ensino superior neófitos ou em início de carreira, para os quais não existe nenhum programa específico de formação, não se reconhecendo, portanto, as peculiaridades do ensino nem da fase em que aqueles se encontram.

Será, pois, importante ter em conta este aspecto na concretização da estratégia global de formação e de desenvolvimento profissional dos docentes do Ensino Superior.

Por outro lado, consideramos importante, em termos de intervenção futura, analisar processos e práticas de avaliação, uma vez que esta constitui um elemento estruturante, não só ao nível do processo de ensino/aprendizagem, mas também ao nível da própria formação. Avaliar o impacto da formação realizada na mudança de práticas (mas também de crenças) docentes é, pois, um repto que merece resposta no sentido de melhor compreender processos de formação e de melhorar práticas existentes.

Maria Cristina Queiroz da Costa Lobo Miranda

ISEP, Novembro de 2007

Referências Bibliográficas

FORMOSINHO, J., FERREIRA, J. & MACHADO, J, (2000). Universitarização da Formação de Professores e Profissionalidade Docente. Revista Galego/Portuguesa de Psicología y Educación, 4 (6), 345-351.

TAVARES, J.; BRZEZINSKI, I.; PEREIRA, A.; CABRAL, A.; FERNANDES, A.; SILVA, H.; BESSA, J. & CARVALHO, R. (2004). Docência e aprendizagem no Ensino Superior. Investigar em Educação, nº 3, pp. 15-55.

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