Progressões e notícias

Colega,

há algumas semanas, o jornal Público fez capa com a notícia sobre a média do número de Excelentes na avaliação de desempenho dos docentes do Ensino Superior. Segundo o jornal, mais de metade dos docentes teriam tido menção máxima. 

Ao ler-se a notícia percebe-se que existem vários problemas com os dados e com a forma. Não só existe uma enorme disparidade entre instituições, como apenas foram referidas menos de metade.  

Algumas instituições apresentaram até números parciais, referidos como se fossem o todo - caso da Universidade do Porto, em que existem diversas faculdades que não concluíram ainda o processo de avaliação. Note-se ainda que, apesar de não existir suporte legal, a Universidade do Porto tem aplicado quotas em várias faculdades. Ora, nos dados apresentados ao jornal Público, parece que esta universidade abandonou esta prática, ou preferiu apresentar os dados que mais convinham à narrativa que o jornal procurou criar. 

Também não deixa de ser curioso que instituições que demorem tanto tempo a fornecer dados ao SNESup, quando a tal estão obrigadas, sejam tão proativas a fornecer dados truncados a um jornal. 

Como é hoje referido em artigo de opinião do Presidente da Direção do SNESup, nada temos contra o jornalismo posicionado, desde que assumido. 

É positivo que o Público se debruce sobre este tema e que o procure fazer com dados, mas não pode esquecer, nem como foi aplicado o sistema de progressões horizontais (apenas aos docentes com 6 anos de menção máxima), nem a forma que assume o mesmo, com um escrutínio de métricas que procura medir objetivamente tudo o que é produzido. 

Sobretudo o que faltou dizer é que a pretensa abundância de Excelentes, resultou na progressão de apenas 28,8% dos docentes, como hoje demonstramos. 

Cristopher Freeman (responsável por diversos dos sistemas de indexação e métrica aplicados à investigação científica) afirmou uma vez que quando se colocam uma métrica o mais certo é que os agentes procuraram alcançá-la. 

Claro que há casos em que os agentes procuram subvertê-la, reservando para si uma avaliação automática de Excelente, mas isso não pareceu indignar o jornal. 

Não deixa de ser paradoxal esta tendência de alguns "cavaleiros da liberdade individual" para dobrar a realidade dos resultados, através da ação de um Estado centralizador, querendo subverte os resultados individuais, pretendendo uma aplicação cega e obrigatória de quotas. Esse é o propósito da notícia do Público de dia 2 de junho, que segue um artigo de um colega que tem esta opinião. 

Isaiah Berlin desenvolveu o tema da liberdade negativa, sendo curioso como existem supostos liberais tão adeptos dessa ação do Estado. O prejuízo dos outros contínua a animar alguns. Que tenham lugar de destaque é um sinal de um certo tempo. 

Niguém pode estar satisfeito com o atual sistema de avaliação. O desequilíbrio é óbvio, sendo que não faz sentido que exista tamanha desproporção de resultados entre instituições (mais ainda quando tudo é pago pelo Orçamento de Estado). 

Há muito que chamamos a atenção para este problema e o SNESup está na linha da frente daqueles que defendem a alteração deste sistema. É o que iremos fazer, com propostas concretas e devidamente fundamentadas. Essa é a seriedade e o rigor que deve marcar este setor. 

Saudações Académicas e Sindicais
A Direção do SNESup

11 de junho de 2019

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